ASSOCIAÇÃO CULTURAL RECREATIVA E SOCIAL DE SAMUEL

Melhorar a vida das pessoas… com qualidade

Caminha a passos largos para as três décadas de existência, mas ainda lhe faltam quase dois anos… «Era Novembro, domingo, o Verão de S. Martinho já tinha ido embora e a tarde teimava em mostrar a sua pior cara. Custava sair de casa, mas o sentir de que algo importante havia para fazer motivou cerca de 40 cidadãos da freguesia de Samuel a juntarem-se na escola primária».

Estava-se em 1982 e, como se pode continuar a ler na edição especial da revista «Samuel (In)Forma» [publicação trimestral da instituição], que assinalou os 25 anos de vida da Associação Cultural Recreativa e Social de Samuel (ACRSS), realizava-se, a 21 de Novembro, aquela que ficou para a história como a «Reunião da escola», que elegeu, dentre duas listas a sufrágio, os primeiros Corpos Sociais da instituição. A Direcção, presidida por Fernando Pedrosa, no 26 do mesmo mês, assinava a escritura da novel, e ainda apenas, Associação Cultural e Recreativa de Samuel.

“Samuel sem a Associação seria bem diferente e não seria melhor”, começa por dizer, ao SOLIDARIEDADE, a actual presidente Horácia Pedrosa, há 12 anos no cargo: “Temos o testemunho de jovens, que aqui viveram e foram para outros países e agora regressaram, que Samuel não é o mesmo. E não falo apenas nos serviços prestados à comunidade, e são muitos, mas também na qualidade de vida e na empregabilidade, porque a maioria dos nossos funcionários são da freguesia”.

A instituição, inserida no meio rural do concelho de Soure, fronteiro aos de Montemor-o-Velho, Pombal e Figueira da Foz, começou com poucos recursos e reduzidas infra-estruturas pelo apoio aos mais idosos.
“Começámos com o Serviço de Apoio Domiciliário, quando ele começou no País, que foi em Coimbra, concretamente no concelho de Soure, com a Santa Casa da Misericórdia”, recorda a Horácia Pedrosa, que co-presidira à «Reunião da escola», recordando como era naqueles tempos iniciais: “Fazíamos a comida em casa dos idosos, a roupa era lavada numa máquina doméstica aqui no salão de festas, a única infra-estrutura que possuíamos, e era passada a ferro no palco. Quando havia qualquer evento tínhamos que arrumar tudo para um canto”.

Movidos por um sentimento forte em ajudar os mais desfavorecidos, os responsáveis pela Associação de Samuel fizeram-na crescer, não apenas em infra-estruturas, mas igualmente nas respostas à comunidade.
Prova simples desse crescimento: aquando das comemorações dos 25 anos da instituição, alguns dos primeiros utentes do ATL foram convidados para visitar a mesma. Quando instados a escolher um local para serem fotografados, escolheram o elevador, algo de impensável ao tempo em que estes, agora, jovens adultos eram crianças do 3.º ano do Ensino Básico…

No que foi «Valmendos», terra de pinhais e de cultivo, ergue-se hoje o pólo dinamizador e aglutinador da população de Samuel, mas não só…
“Nós existimos porque a população existe, para servi-la e para melhorar os serviços e a qualidade de vida das pessoas, essa é a nossa grande prioridade”, afirma Horácia Pedrosa, passando a enumerar as valências da instituição, que, entretanto, acrescentou Social à sua designação: “Começámos com os idosos e só depois é que surgiu o ATL, hoje CATL… Então, mais tarde construímos o Centro de Dia, pois nessa altura já tínhamos aqui algumas estruturas, como cozinha, lavandaria e já fazíamos tudo aqui, só íamos levar a comida e limpar a casa dos idosos e fazer a higiene pessoal de alguns que estão acamados…”.

As dificuldades em lidar com a Terceira Idade por vezes são grandes. “Há muita gente que não quer sair da sua casa”, sustenta a presidente da IPSS, para de seguir deixar um elogio a todos os que têm conseguido fazer vingar o projecto da «Reunião da escola»: “Começámos com muito amadorismo, mas também ninguém sabia muito bem o que era o Apoio Domiciliário. Parece que foi importado dos países do Norte da Europa, mas soubemos adaptá-lo à nossa realidade nacional e hoje é das melhores coisas que foram criadas depois do 25 de Abril. A pessoa está na sua casa, a fazer a sua vida normal e tem alguém que lhe dá apoio, isso é muito bom”.
Mesmo assim, solta um lamento carregado de preocupação: “As noites destes idosos é que são complicadas…”.

Apoio à rede pública

Samuel tem cerca de dois mil habitantes e um centro escolar com 73 crianças, destas 60 andam no CATL da Associação, sendo esta que fornece a alimentação à totalidade dos alunos da freguesia. Para além disso, enquanto o Jardim-de-infância da instituição acolhe meia centena de crianças, o da rede pública, cujas instalações são praticamente contíguas às da IPSS, recebe apenas 11. Já a certificada Creche alberga 35 petizes.

No tocante às demais valências, o Centro de Dia recebe 30 utentes (ou clientes, como se preferir), o Apoio Domiciliário chega a 65 idosos, enquanto pelo Centro de Convívio passam na ordem das 100 pessoas, das mais diversas idades e interesses, que se juntam pelas mais diversas motivações ou em trono de certos eventos, como o Mercado Solidário (dia 1 de Maio é o próximo), ou como foi na recente Noite de Fados, entre outras actividades.

A lógica foi e é a de ir sempre ao encontro das necessidades da comunidade e, certificada para dar formação profissional desde 1989, foi apenas em 2005 que nasceu no seu seio um centro de Novas Oportunidades, do qual nasceu a empresa de inserção, também ela uma fonte de receitas para a instituição que emprega 77 funcionários, enquanto na formação profissional estão envolvidos 30 prestadores de serviços e há ainda seis pessoas em Estágio de Qualificação-Emprego ligadas à Associação.

“O Novas Oportunidades permitiu dar formação na área da infância a mulheres da comunidade, que não a tinham, e então ter condições para criar o serviço de creche e jardim-de-infância. O projecto também financiou o edifício e deu-nos a possibilidade de preparar gente para aqui trabalhar, gente que não tinha qualificação e que estava desempregada”, explica a secretária-geral da instituição, Teresa Pedrosa, recordando: “Durante muitos anos fomos o único centro de Novas Oportunidades do concelho de Soure, só há três é que surgiu um outro no Agrupamento de Escolas de Soure. Nós abrangemos não apenas as 12 freguesias do concelho de Soure, mas muitas dos concelhos de Montemor-o-Velho, Figueira da Foz e Pombal, com os quais fazemos fronteira. Apanhamos as franjas todas dos concelhos em volta, porque estamos no limite do nosso. E trabalhamos muito em itinerância. Na sede fazemos um número residual de acções, os nossos técnicos estão constantemente a ir dar formação a outros locais”.

Qualidade certificada

E porque a história serve para orientar o presente e sonhar o futuro, a Associação de Samuel iniciou no ano passado a construção de uma Unidade de Cuidados Continuados e está prestes a lançar o concurso público para a edificação de um Lar de Idosos.
Mas há muito que a instituição pôs em marcha um dos mais ambiciosos projectos não físicos: implementar uma gestão de qualidade. A aposta, lançada pela própria organização em 2002, vale-lhe hoje a certificação de todas a instituição (desde 2009) pelo ISO9001 e da Creche (desde 2010) pelos Manuais de Avaliação da Qualidade da Segurança Social, cujos diplomas são orgulhosamente exibidos nas paredes da instituição.
“A partir do momento em que o sistema está mais apurado e avançado, começamos a sentir os ganhos em muitas coisas”, sustenta Teresa Pedrosa, explicando: “Já passámos aquela fase de investimento no sistema, porque o fizemos internamente. Todos os técnicos tiveram que investir muito, em termos profissionais e pessoais, na criação e desenvolvimento do sistema e a própria organização fez um investimento forte com a contratação de uma pessoa especificamente para essa área, e os ganhos começam a vir agora”.
Em termos práticos, “há um maior acompanhamento e estudo de todas as situações, o que leva à opção por soluções mais eficazes na resolução dos problemas e não só, até mesmo na gestão de pessoal e das funções de cada um…”, acrescenta.

Segundo a responsável pelo Departamento de Qualidade, Susana Caeiro, “há uma grande vantagem na parte da organização, pois com tudo definido por processos é mais fácil avaliar resultados e os serviços e a avaliação da satisfação dos clientes, o que acaba também por resultar em economia”, ao que a secretária-geral da instituição acrescenta: “Os gastos da não qualidade são sempre maiores do que os da qualidade”.
A certificação da Creche, que pode parecer irrelevante para alguns, acaba por levar outro tipo de pessoas a procurar a instituição.

“Notámos que a partir do momento em que tivemos a certificação da Creche houve muito mais pessoas a procurar-nos e a razão foi essa mesma certificação e as garantias de qualidade que damos a esses pais”, assegura Teresa Pedrosa, considerando que, “em termos de imagem para o exterior, isso também é uma mais-valia”.
E se é verdade que as infra-estruturas de apoio à infância acabam por ajudar a fixar jovens em regiões menos apelativas, também passa pelas instituições ir ao seu encontro e das suas necessidades. No caso da Associação Samuel, uma sexta-feira por mês, foi alargado o período de funcionamento até à meia-noite.
“Para dar uma folga aos pais, que assim podem ir às compras, ao cinema, jantar fora, terem um bocadinho para si próprios”, explica a presidente da Associação, ao que acrescentou: “E para as crianças é uma diversão, porque é a noite do pijama, que tem montes de actividades”.

Criatividade precisa-se

Como é transversal a este tipo de instituições, “a grande dificuldade é financeira”, começa por afirmar Horácia Pedrosa, justificando: “Somos de um meio rural o que significa que as reformas dos utentes são muito baixas… O Estado devia comparticipar em função do que os clientes pagam e não tudo por igual”.
Contudo, as dificuldades apelam à criatividade. “Isso obriga-nos a ser mais criativos para encontrar fundos quando e onde eles não existem, como seja as Noites de Fados e outras iniciativas”, e acrescenta: “Cada vez mais temos que nos auto-financiar e a empresa de inserção é uma forma de o fazermos. Promovemos festas, contamos com fundos da Câmara Municipal de Soure, que comparticipa com 15% todas as obras que sejam também comparticipadas pelo Estado, como é o caso da Unidade de Cuidados Intensivos e do futuro Lar. E 15% já é muito bom, pois há câmaras que não dão nada…”.

Tal como S. Miguel ataca o Diabo, na cena que domina o retábulo da Igreja Matriz de Samuel, a instituição ataca os problemas sociais da região e tenta dar respostas. Conhecida por Freguesia do Diabo – «Ele é tão bonito/Tem pé de cabra e dente de leão/Em cima dele está S. Miguel/Com a espada na mão» –, e muito por acção da Associação Cultural Recreativa e Social de Samuel, por aqueles lados se diz que «Deus é bom, mas o diabo também não é mau»…

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2011-03-14



















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