ASSOCIAÇÃO DE PARALISIA CEREBRAL DE LISBOA

Ordem de Mérito reconhece 52 anos de luta

Nasceu Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral, em 1960, mas, tal como «o vento leva a flor», a iniciativa dos 10 progenitores fundadores disseminou-se pelo País e hoje é simplesmente Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL). E os 52 anos de história de luta em prol de quem sofre de paralisia cerebral foram, no passado dia 10 de Junho, reconhecidos pela Presidência da República, que atribuiu à APCL a distinção de Membro Honorário da Ordem de Mérito.
Sem exageradas vaidades, José Antelo, presidente e um dos pais fundadores da Associação, olha para a distinção de uma forma muito pragmática: “Em termos de funcionamento, não muda nada, porque continua a funcionar de forma normal. Do ponto de vista de visibilidade, passou a ter mais visibilidade do que a que tinha… mas penso que acaba por ser uma retribuição mais para os utentes e seus familiares, porque vêem reconhecido o papel da Associação ao longo dos anos na sua luta, que como sabe não é nada fácil”.
A, então, Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral nasceu da iniciativa de um grupo de pais que, juntamente com alguns técnicos, arrancou com uma primeira resposta às necessidades que identificaram na educação e formação dos seus filhos, na altura com poucos anos de vida.
“Eu fiz parte dos 10 pais, cinco casais, que fundaram a Associação e, digo-lhe, era impensável há 52 anos o desenvolvimento que uma instituição destas poderia atingir e a multiplicação que conseguiria pelo País”, diz José Antelo, que de seguida recorda a reunião com o ministro da Saúde, nomeado há pouco tempo, aquando da audiência com o grupo de pais que estaria na génese da fundação da, hoje, APCL.
“O ministro da Saúde quando a Associação se quis criar era Henrique Martins de Carvalho, a quem pedimos uma audiência, onde fomos os 10… Estamos em 1958. O ministro não queria receber mais do que dois pais, mas nós dissemos que ou eram todos ou não era nenhum… Segundo o próprio Ministério da Saúde, estas crianças não tinham cura, pelo que era melhor ficarem em casa e não aparecerem. Então dissemos-lhe que não era bem assim, até porque lá fora já havia centros de reabilitação… Então o ministro contou-nos uma história: «Havia uma criança que estava junto a uma grande muralha na China, onde não havia porta nenhuma, e passou uma caravana na Rota da Seda e perguntaram-lhe o que fazia ali. A criança respondeu que estava à espera de poder passar para o outro lado. Disseram-lhe que bem podia esperar… Os anos passaram e a criança tornou-se num velho de barbas muito longas e, um dia, um outro velho também de barbas muito longas perguntou-lhe o que fazia ali… Ele respondeu que estava à espera de passar para o outro lado». Como vêem, disse o ministro, é preciso muita paciência porque é preciso contar com o tempo. Eu, naquela altura, tinha o sangue na guelra e disse-lhe que aquilo tinha muita graça se não se tratasse dos nossos filhos. O ministro caiu em si, pediu desculpa, levantou-se, foi ao telefone, falou com o provedor da Misericórdia e arranjou-nos uma casa para criarmos um centro e um subsídio para começarmos a funcionar”, relembra o presidente da instituição.
“Esta Associação foi criada em 1960 por um grupo de pais e técnicos que se juntaram para tentar a reabilitação de crianças que eram muito pequeninas na altura, todas com um, dois anos… Todos filhos de pais muito jovens… Nessa altura a Fundação Calouste Gulbenkian tinha sido fundada há muito pouco tempo e foi esta instituição que apadrinhou a criação da Associação, patrocinando a construção de todo este Centro e, para além disso, todo o equipamento e formação do pessoal, que naquela altura tinha que ser feito no estrangeiro”, conta José Antelo, explicando que à medida que as necessidades das crianças eram identificadas, a Associação encontrava uma resposta. Por isso, seguiu-se uma escola de ensino especial, o primeiro Centro de Actividades Ocupacionais e a formação profissional, aproveitando os apoios comunitários da altura. “Isto em desenvolvimento cronológico com a idade das crianças”, sublinha o presidente da instituição, continuando: “Os pais envelheceram, alguns desapareceram e foram, então, criados lares residenciais… E agora fechámos o ciclo, tendo voltado às crianças, dos zero aos três anos, porque pensamos que dos zero aos três anos é possível ter intervenções e desenvolvimentos nas crianças. A Associação foi sempre desenvolvendo-se em função das necessidades efectivas que acompanharam este grupo etário de pessoas que foi sendo alargado… Portanto, não foi por um planeamento estratégico feito de forma filosófica, mas através das necessidades do dia-a-dia que foram sendo identificadas”.
Hoje, a APCL congrega um vasto leque de respostas dadas em vários centros espalhados pelo concelho de Lisboa, mas não só, registando um crescimento exponencial em pouco mais de uma década.
“Há 12 anos tínhamos apenas 23 pessoas como residentes, mas uma lista de espera de quase 200, agora como que quintuplicámos a capacidade instalada”, revela José Antelo.
Em termos de equipamentos e respostas sociais, a APCL, que conta com 200 funcionários, acolhe 29 utentes, em Lar residencial, no Centro Nuno Belmar da Costa, em Oeiras, mais sete na Casa do Tejo e outros tantos na Casa Benfica, mais 24 no da Alta de Lisboa e ainda mais 24 no Centro José Azeredo Perdigão; ocupa, em Centro de Actividades Ocupacionais, 25 utentes no Espaço 7 Ofícios, mais 12 no Centro Nuno Krus Abecassis (onde a capacidade é de 24), mais 29 e 23 nos dois CAO de Oeiras e ainda mais 15 no Centro José Azeredo Perdigão (onde a capacidade é de 30), que por ter sido construído ao abrigo do PARES II não tem qualquer Acordo de Cooperação; e ainda apoia, no Serviço de Apoio Domiciliário, em Lisboa até 60 pessoas com deficiência, mas o número é variável, e presta ainda um apoio mais alargado a 100 pessoas com deficiência, com necessidades especiais e idosos para 100, nas Casas da Granja (Centro Azeredo Perdigão), e que está ainda a ser preenchido.
“Este é o apoio a que chamamos 3G, Terceira Geração, porque já não é o Apoio Domiciliário clássico, mas que inclui uma vigilância da saúde das pessoas”, explica José Antelo, que adianta ainda que a APCL acolhe mais 10 utentes em residências autónomas.

COMBATE À DÍVIDA E AO DEFICIT

Em termos financeiros, as receitas da instituição provêm em 66,7% da comparticipação do Estado, entre 10 e 12% da dos utentes e o restante é o que o presidente da APCL chama de milagre.
“O milagre é arranjar fundos não se sabe como, seja através de programas, concursos, prémios… Já fomos bafejados duas vezes com o prémio da EDP Solidária, uma com o BPI Capacitar e outros”, esclarece.
Directamente ligado à sustentabilidade da instituição está um dos dois projectos em marcha na Associação.
“Há dois projectos em marcha neste momento… O primeiro é sermos certificados com o grau de Excelência pelo EQUASS, embora em relação a Lisboa e Vale do Tejo tenha deixado de haver comparticipações, pelo que vamos ter que o fazer por meios próprios. E o outro projecto que estamos a implementar é aquilo a que chamo de Pequeno Portugal”, afirma José Antelo, explicando: “Somos um Pequeno Portugal porque temos um elevado endividamento e um deficit estrutural. O endividamento precisa de ser reduzido e o deficit estrutural mudado. Então, fomos buscar uma troika, que se chama Deloitte, que nos fez um estudo bastante aprofundado e agora estamos a seguir a receita dessa troika. Estamos a cortar as unhas a tudo quanto é sítio”.
Para o presidente da APCL, que entre as demais respostas que dá, do desporto às terapias, apoia um universo de 500 a 600 pessoas, “acabou a fase de crescimento, uma nova fase destas só daqui a quatro, cinco anos, agora o grande programa é a fase das duas consolidações, a do deficit e a do endividamento”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2012-08-20



















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