A.I.T.I. ERVEDOSA DO DOURO

Senhor José Manuel completou 100 anos

Há quem o conheça como José Manuel «Baltazar» ou José Manuel «Sem Tripas», mas foi apenas como José Manuel que foi registado em 1913, ano do seu nascimento.
No passado dia 2 de Março celebrou, na AITIED, onde frequenta o Centro de Dia, com a família e os amigos um século de vida, um feito que Ervedosa do Douro não assistia há muito entre os seus conterrâneos.
“Chamo-me José Manuel… não tenho mais porque não me puseram mais nome nenhum”, justifica, ao mesmo tempo que argumenta contra a alcunha «Sem Tripas»: “Esse nome não vale a pena, eu tenho tripas senão já tinha morrido”.
A justificação para tão estranha alcunha sai pronta da boca de um homem que demonstra uma frescura de espírito e uma memória invejável… para muitos com metade da sua idade.
“Eu tinha um tio que era carpinteiro e que comia pouco. Ele andava a lavrar com bois, enquanto não foi carpinteiro, e o senhor que lhe dava de comer, como ele só bebia, fumava e comia pouco, dizia-lhe que ele não tinha tripas, e que era por isso que não comia… Como andava por lá mais gente, o nome pegou e passou para a família”, conta o senhor José Manuel, que ressalva: “Desde que não me chamem ladrão ou assassino, não me interessa o que me chamam”.
De conversa fácil e andar ligeiro, sempre acompanhado do seu varapau, o senhor José Manuel fala com orgulho da sua vida, que não foi fácil, mas que lhe parece, mesmo assim, ter-lhe sorrido… ao longo destes já 100 anos.
“Andei 20 anos com bois e governei a minha vida. Tinha machos bons, ia para a Régua, aos três meses, lavrar e por aqui fazia a mesma coisa. Trabalhei sempre com o gado”, recorda, falando de pronto da família: “Pus quatro filhos na França, um morreu, que era o mais velho, e os outros ainda lá estão”.
A França, para além dos filhos e demais descendência que por lá está, entra na vida do senhor José Manuel aos 50 anos.
“Estive em França sete anos e meio. Fui para a França com 50 anos. Tinha lá um amigo, o António Semeão, e fui para França, não tinha onde cair morto”, relembra, constatando: “Agora, estou com 80 contos da França e de cá são poucos contos também, tenho 28 milheiros de vinha e uma rica casa. Disseram-me que não fazia nada desse prédio (vinha), mas fiz…”.
Instigado a olhar para o século que leva de vida, não demonstra agrura: “Gosto de tudo na minha vida, só não gosto que me tratem mal que eu também não trato mal ninguém”.
Como era usual na altura, o senhor José Manuel foi a «salto» para França, uma história que recorda como se ela se tivesse passado anteontem.
“Fui para França porque a vida aqui não me corria nada bem e como tinha um amigo lá, fui… Mas os trabalhos que passei pelo caminho!... Se adivinho nunca tinha ido! Eu cuidei de morrer no caminho, com o frio e com tanta água, oh meu Deus!”, suspira.
“Estávamos, em Espanha, debaixo de uma telheira, feita com palha, encostados a uma parede, agarrados uns aos outros… Mas cuidámos que morríamos ali!... Depois, viemos para adiante e vimos alguém, cuidei que era a Guarda e pensei que estávamos perdidos, mas era um passador que vinha saber de nós… Bem, aquilo era um lamaceiro!”, conta, prosseguindo com o episódio da entrada em França: “O passador tinha um carro, mas tínhamos que atravessar uma terra onde havia festa… O problema era a polícia. Ele levou-nos lá a um sítio para nos lavarmos bem lavadinhos e ficarmos todos penteadinhos e passámos pela festa fora… Passados uns dois quilómetros, olho para trás e era a Guarda a cavalo que lá vinha. Estava um nevão alto, havia um carvalhal baixinho e foi aí que nos escondemos, com neve até aos joelhos. Eles passaram a cavalo e não nos viram, mas ainda tivemos lá muito tempo”.
Sobre o momento actual de Portugal, o senhor José Manuel é de poucas palavras, “o País está em lama”, mas questionado se esta é a pior crise que vive: “Oh Nossa Senhora, quer que fale na fome que passei? Olhe que passei alguma”.
Sobre os tempos difíceis da II Guerra Mundial, diz terem sido complicados, mas: “Quem trabalhou não tinha fome, para os meus filhos nunca tive fome”.
Apesar de ter completado 100 anos de vida, o senhor José Manuel olha o futuro com optimismo, baseado na genética: “Oh, quantos desejos ainda tenho para cumprir! O primeiro é não morrer. Sabe, na família do lado da minha mãe morreram todos com idade avançada. A minha mãe morreu com 98 anos, com os dentinhos todos, o cabelinho preto e direitinha que parecia um fuso… Já do lado do meu pai morreram com pouca idade… A família da minha mãe era tudo gente mais dura”.
Para além disto, o senhor José Manuel quer que a sua vida continue colorida e animada, pelo que casar não está posto de parte. Questionado sobre potenciais candidatas a senhora José Manuel, a resposta vem subliminar: “Há aí tantas raparigas… mas não se pode piscar o olho que há muita gente a ver!”.
Longa vida ao senhor José Manuel!...

 

Data de introdução: 2013-03-23



















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