INSTITUTO MADRE MATILDE, PÓVOA DE VARZIM

Não podemos fazer milagres

O Instituto Madre Matilde prossegue a sua missão na Póvoa de Varzim desde 1955, que, tal como diz ao SOLIDARIEDADE, a Madre Maria José é, tão simplesmente, “acolher crianças pobres”, aquelas que “hoje se chamam crianças em perigo”.
Desde que abriu na Póvoa de Varzim, o Instituto teve sempre a resposta de Lar de Infância e Juventude (LIJ) e jardim-de-infância… “e nunca fechou um dia para fazer balanço, ou outra coisa”, destaca a irmã Maria José, hoje responsável pela casa poveira da Congregação das Filhas de Maria Mãe da Igreja (FMMI), mas também ela há muitos anos uma interna, onde permaneceu dos sete aos 13 anos de idade.
Porém, e apesar de a instituição ir cumprindo o seu trabalho, a irmã Maria José anda preocupada, porque receia que a comparticipação da Segurança Social para o LIJ não seja suficiente para manter a casa com a qualidade que tem assegurado.
“Já sabemos que toda a criança que entra no LIJ temos que ser nós a vestir, a calçar, a alimentar, a educar e a tratar da saúde. Temos que ser nós a tratar de tudo”, afirma, prosseguindo: “Agora, já nos estão a pagar os 700 euros mensais por jovem e isso já é uma ajuda, mas isto ainda está um pouco confuso, porque ainda não sabemos se nos vão pagar por criança ou se nos vão pagar pelo protocolo. É que no Acordo de Cooperação estão 28 inscritas, mas efectivamente apenas temos 20. Se nos pagarem por cabeça não podemos subsistir, porque muitas vezes não conseguimos ter as 20 que queremos. É que ter 28 jovens é muito complicado, porque as crianças de 14, 15 e 16 anos em LIJ tornam a situação muito complicada. E nós também pretendemos fazer um trabalho mais personalizado para a criança ser mais bem atendida”.
Preocupada, a responsável pelo Instituto poveiro é peremptória: “Se for por cabeça, não dá… Vamos continuar a dar o nosso melhor, o nosso grande objectivo sempre foram as crianças desprotegidas e continuará a ser, mas se o Estado não colaborar connosco, nós não vamos fazer milagres!”.
É que as contas da instituição são fáceis de fazer, como explica a Madre: “Temos os acordos de cooperação para o jardim-de-infância e para Lar e a comparticipação dos pais no caso do jardim-de-infância. Depois temos uma ajuda da Junta de Freguesia, que mensalmente nos dá uma verba para o LIJ, já há bastantes anos. Temos ainda esporadicamente um subsídio dos Jogos Santa Casa e os donativos são sempre o que o Senhor nos mandar. De facto, ainda temos algumas almas boas que nos ajudam e deve-se valorizar muito estas pessoas que têm tido gestos extremos de generosidade para com a instituição. O povo é muito carinhoso connosco e valoriza muito o nosso trabalho, feito apenas aqui dentro destas quatro paredes, porque não gostamos de dar nas vistas”.
Por outro lado, a irmã Maria José dá conta das dificuldades por que o jardim-de-infância também tem passado.
“Temos tido menos procura no jardim-de-infância e noutros anos não temos conseguido ter as 44 crianças, o que nos obriga a devolver o valor de cada criança a menos à Segurança Social”, explica, revelando que esta é uma situação que se alterou, mas por força de um reajustamento das mensalidades: “Este ano estamos lotados, mas também tivemos que fazer uma readaptação, ou seja, tivemos que adaptar as mensalidades às possibilidades das famílias. Têm é que dar alguma coisa, nem que seja cinco euros, porque é uma forma de também responsabilizar os pais. Muitas vezes as pessoas encostam-se e não podemos deixar que isso aconteça. Pagam menos, mas a criança fica, porque esta é que é beneficiada por estar aqui”.
Aliás, “desde Março de 1956 que a instituição foi reconhecida pelo Estado, o que lhe rendia uma verbal anual, no entanto, insuficiente para as necessidades”, conta a irmã Maria José. Daí que as irmãs andassem de terra em terra a pedir dinheiro e bens para alimentar as crianças que tinham a seu cargo. “E as pessoas davam muito”, relembra, acrescentando: “Hoje não acontece tanto, porque nós também não podemos dedicar-nos a pedir de porta em porta. Graças a Deus os tempos são diferentes e temos um Acordo de Cooperação com a Segurança Social. No jardim-de-infância temos algumas crianças que os pais não podem pagar, porque a crise tem afectado muito as pessoas. E, sabendo que os pais estão desempregados, não podemos pedir-lhes que comparticipem, porque eles não podem. Mas as crianças ficam, pois enquanto aqui estão, são alimentadas e cuidadas devidamente. Mas ainda é bonito ver que os nossos amigos fazem chegar uns géneros alimentícios. É pouco, mas é de boa vontade”.
A isto acresce a parceria com o Banco Alimentar Contra a Fome, que “é uma grande ajuda, até para se poder ajudar algumas famílias mais carenciadas”.
Nos dias que correm, o Instituto Madre Matilde da Póvoa de Varzim acolhe em LIJ 20 crianças e jovens, com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos, e 44 petizes no Pré-escolar. O corpo de funcionários é de 15, a que se juntam quatro irmãs da Congregação FMMI.
“Como todas as congregações, também nós temos falta de vocações e ao longo do tempo tivemos que ir admitindo pessoal qualificado para nos ajudar. Hoje as congregações estão muito diminuídas e é preciso gente para nos ajudar, mas também é preciso dar a ganhar o pão às pessoas”, sustenta a irmã Maria José, que sublinha algo que considera muito importante no trabalho da instituição: “Temos aqui uma boa equipa e as irmãs estão cá 24 horas por dia e as meninas sabem que têm aqui sempre um coração de mãe à espera”.
Trabalhar o projecto de vida das internas, muitas vezes encaminhadas para a instituição pelos tribunais e pela Segurança Social, mas também as famílias é a missão do Instituto, no sentido de devolver a estas jovens o direito a uma vida condigna.
“As jovens do LIJ, por muito mal que se esteja na família, a família é sempre a família, e elas prefeririam estar com ela, mas reconhecem que aqui têm tudo, o que na maioria das vezes em casa não têm. E aqui acabamos por fazer também uma família”, sublinha a Madre, passando a explicar o que pretendem quando acolhem uma jovem no Lar: “Não as recebemos apenas, promovemos um projecto de vida. Quando a jovem entra, nós já estamos a preparar a saída, porque estas jovens não são para ficar aqui eternamente. Infelizmente, algumas têm saído daqui só aos 18 anos, algumas aos 20 e até aos 22 anos, porque nós não as podemos entregar à família. Por isso, temos que as preparar para vencerem na vida sozinhas. E algumas nem querem voltar a casa”.
E depois em Lar estão jovens adolescentes em idades complicadas e já com percursos de vida desviantes para a idade.
“Hoje, muitas famílias perderam os valores e as crianças e adolescentes bebem aquilo que as famílias lhe deram. E quando uma jovem chega aqui, para começar tudo do zero é muito difícil. Muitas delas já vêm de percursos com abandono escolar, namoros, saídas à noite, etc… Para muitas isto não é problema, porque é a realidade delas e em casa ninguém lhes diz nada”, refere a Madre, explicando a mudança a que assiste: “Quando aqui chegam e lhes é apresentado um conjunto de regras de início custas-lhes, mas depois ficam contentes, porque venceram os muitos obstáculos que estavam a encontrar. Temos visto que em pouco tempo conseguiram desbloquear-se e ver uma luz ao fundo do túnel”.
A esta altura do projecto desenvolvido com cada uma das internas surge o grande desejo da irmã Maria José… Um espaço próprio para as meninas trabalharem a autonomia de vida.
“Gostaríamos de preparar um anexo que temos para a pré-autonomia de vida. Neste momento temos umas oito meninas para preparar para a autonomia de vida e aquele espaço que ali temos nas traseiras era o ideal, mas ainda não há verbas para fazer os apartamentos que gostaríamos”, revela a Madre, que entretanto tentou já outra solução que parece ser mais viável no curto prazo: “Já pedimos à Câmara apartamentos, onde a autarquia tem habitações sociais, para que as nossas meninas que estão com idade irem para a autonomia de vida. O nosso sonho é que estas meninas quando saírem deste ninho para o Mundo, se não tiverem condições de regressar às famílias, tenham um apartamento onde possam iniciar a sua caminhada na vida autónoma. Está prometido, vamos aguardar”.
Para além disto, a irmã tem um projecto mais idílico, mas igualmente pertinente, especialmente nos dias que correm: “O projecto é sempre tornar esta instituição uma casa aberta e agradável. O nosso grande projecto é vermos todos os que frequentam esta casa felizes”.

HISTÓRIA

O Instituto Madre Matilde emana directamente da Congregação Filhas de Maria Mãe da Igreja, nascida em 1874, e que teve na beata Madre Matilde Tellez Robles a fundadora.
“O sonho dela sempre foi acolher crianças desprotegidas e doentes. Ela foi formando crianças e jovens na escola dominical, como se chamava naquele tempo, e fundou ainda um hospital”, começa por contar a Madre Maria José, prosseguindo: “A Congregação foi crescendo, veio para Portugal, para que a instituição não acabasse por força da Guerra Civil de Espanha, instalando-se No Alto Alentejo em 1933. Inicialmente as irmãs eram todas espanholas e foram fundando casas na Covilhã, Marvão, Nisa, Portalegre, Castelo Branco e, em 1955, houve a possibilidade de vir para o Norte, através dos padres jesuítas, que indicaram esta casa onde agora estamos. As irmãs vieram para aqui em 25 de Julho de 1955, já não só espanholas, mas também algumas portuguesas”.
Tal como todas as outras em Portugal, a casa da Póvoa de Varzim foi fundada pela Madre Superiora Jacinta.
“Esta era uma casa que estava quase abandonada, mas como ainda se vê era uma espécie de palacete… Tem origem em 1874, segundo um azulejo que ainda resiste, e era um edifício de três casas que por fora tinham comunicação, mas por dentro não, eram perfeitamente independentes”, conta a irmã Maria José, realçando que, após umas pequenas obras de remodelação, a instituição recebeu as primeiras sete meninas, todas órfãs da Póvoa de Varzim, em 8 de Dezembro de 1955.
“E ainda nesse ano abriu ainda uma pequenina sala para crianças pequenas, o que agora chamamos de infantário. Eram todas crianças de famílias bem que necessitavam de um local para deixar os seus filhos. Estes pais pagavam para as irmãs cuidarem dos seus filhos, o que servia para ajudar as crianças internas”, recorda, sublinhando que, por exemplo, aquando do incêndio da Casa Pia, em Lisboa, a instituição recebeu de lá muitas meninas, tendo atingido um total de 60 internas.
“Desde o princípio que esta casa acolhe crianças de mães que iam trabalhar para as fábricas, aquilo que hoje chamamos de ATL”, conta a irmã Maria José, que recorda ainda uma outra valência, hoje inexistente: “Chegámos a ter a valência que era só para dormir, a que naquela altura chamávamos hóspedes. Eram jovens das aldeias mais longe que vinham para aqui estudar e que ficavam aqui em casa. Muitas professoras já reformadas passaram por aqui”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-05-27



















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