CENTRO SOCIAL DE ERMESINDE, VALONGO

Promover a igualdade social e a cidadania

Tudo começou em 1949 com a Sopa dos Pobres de Ermesinde, que seis anos volvidos daria origem à instituição que hoje dá pelo nome de Centro Social de Ermesinde.
“A Sopa dos Pobres foi um movimento que percorreu Portugal no final da década de 1940, início da de 1950, impulsionado pelo padre Américo Aguiar, que concretamente na Diocese do Porto, mas não só, lançou esse movimento numa época de grande crise, em consequência da II Grande Guerra, e de grande pobreza, como agora temos”, começa por contar Henrique Rodrigues, presidente do Centro Social de Ermesinde, prosseguindo a contextualização histórica: “Esta instituição nasceu de acordo com esse impulso. Apesar de ser uma instituição que nasceu à sombra desse impulso com algumas conotações religiosas, surgiu como uma organização da sociedade civil de Ermesinde”.
Esta tem sido a matriz da instituição que, como refere o seu presidente, “está muito enraizada na sociedade de Ermesinde, mas igualmente muito ligada aos valores mais tradicionais que fizeram esta terra”.
Quase a completar seis décadas de existência, o Centro Social de Ermesinde procura preservar esses ideais que desde início guiam a instituição.
“Procuramos que esses valores que enformam a nossa maneira de estar no Mundo também sejam a forma de actuar e o quadro de referência do Centro”, afirma Henrique Rodrigues, que estabelece um paralelismo entre a Sopa dos Pobres e as Cantinas Sociais de hoje: “De facto, tudo começou com a Sopa dos Pobres, que é um pouco o modelo das Cantinas Sociais de hoje. Também numa altura em que havia fome, a sociedade organizou-se para responder a essa necessidade, fornecendo uma refeição básica às pessoas. Há gente que sobre as Cantinas Sociais diz bem e gente que diz mal e ainda gente que está a meio caminho, ou seja, gente que acha que está bem resolver as carências imediatas, mas que essa resolução das carências mais imediatas não deve pôr em causa o papel das instituições na promoção do desenvolvimento humano em geral”.
Para os responsáveis do Centro Social de Ermesinde esta é a postura correcta, isto é, “é importante que as IPSS promovam a igualdade de oportunidades, o desenvolvimento social, a consciência cívica e a defesa e consciência dos direitos sociais das pessoas, mas não se pode esquecer que havendo necessidades imediatas do ponto de vista físico, a nível de comida e vestuário, a rede tem que funcionar nesse primeiro nível”.
E é por esta razão que, ao cabo de quase meio século, a instituição aderiu ao programa das Cantinas Sociais.
“Aderimos ao programa na perspectiva de ser complementar do trabalho que fazemos, nomeadamente de formação profissional, um serviço que já temos há cerca de 15 anos, no apoio ao mais desfavorecidos, desempregados de longa duração, jovens à procura de primeiro emprego e beneficiários do RSI”, sustenta Henrique Rodrigues, resumindo: “Procuramos também trabalhar nessa perspectiva da cidadania, mas simultaneamente tentamos resolver as situações concretas que de alguma forma podem afectar essa capacidade de emancipação das pessoas”.

VALÊNCIAS

Actualmente, o Centro Social acolhe 40 bebés meninos em Creche, 44 (11 amas) em Creche Familiar, 144 em Pré-escolar, 130 em ATL, no que à infância diz respeito, a que se juntam 115 utentes do Serviço de Apoio Domiciliário e mais 57 idosos no Lar de S. Lourenço, “a primeira resposta residencial no âmbito do Sector Solidário em Ermesinde”, e que foi inaugurado em 2006.
Para além destas valências, e na prossecução dos desígnios que sempre a nortearam, a instituição há muito desenvolve a vertente da Formação Profissional, para a qual está devidamente certificada.
“Esse serviço já teve muita pujança e vitalidade, pois tivemos a funcionar durante vários anos, com uma avaliação, na nossa perspectiva, muito favorável de um Centro de Novas Oportunidades (CNO), que fechou agora com as novas políticas públicas relativamente à concepção do trabalho para a certificação e validação de competências”, lamenta, acrescentando: “O fecho do CNO significou uma regressão no nosso trabalho com esses públicos adultos em situação de particular desfavorecimento. Porém, para nós, é uma área importante, porque isto é uma instituição certificada pela ANQ para a Formação e, embora com menos intensidade, continuamos a trabalhar nessa área. Somos parceiros e entidade executora para a cidade de Ermesinde de um Contrato Local de Desenvolvimento Social (CLDS+), justamente trabalhando a vertente da empregabilidade relativamente a pessoas que estejam numa situação de desfavorecimento perante o mercado de trabalho”.
Em 1999 a instituição criou mesmo uma empresa de inserção, na área da lavandaria e tratamento de roupa, que actualmente absorve sete colaboradores.
Para além do rude golpe que sofreu na área da Formação Profissional, o Centro Social de Ermesinde acabou, como a totalidade das IPSS, por sofrer com a crise que tem atravessado o País.
“Como em todas, porque nisso não somos melhores, nem piores do que os outros… Temos as mesmas fontes de receita, que se têm comportado aqui como noutros sítios. Isto é, há mais ou menos um congelamento das comparticipações da Segurança Social relativamente às actividades, em alguns casos até há diminuição, concretamente na área da infância e juventude, porque algumas valências tem havido quebra de procura”, explica, concretizando de seguida: “Aqui tivemos uma redução do Acordo de Cooperação do ATL de 150 para 130, porque na sequência do programa das AEC do anterior Governo tivemos diminuição de frequência e a Segurança Social diminuiu o número de utentes no Acordo. Portanto uma diminuição efectiva da comparticipação do Estado e ainda tivemos a diminuição efectiva da comparticipação das famílias em função da sua capitação. Quando numa família um ou os dois elementos vão para o desemprego, as comparticipações descem. Nota-se muito isso, especialmente, na área da infância e juventude, que é onde temos tido a maior repercussão desse fenómeno, com diminuição das comparticipações das famílias”.
E para Henrique Rodrigues o cerne deste problema é claro e objectivo: “A grande fonte de quebra de procura teve que ver com as políticas públicas de concorrência desleal, quer no jardim-de-infância, quer no ATL. Com essa política de concorrência tivemos uma diminuição de procura que se traduziu na revisão do Acordo. Estamos a sentir também menos pressão na procura do jardim-de-infância, mas também o fenómeno que associamos a isso, não é o dos pais estarem em casa e já não precisarem, mas porque houve construção, no âmbito do programa do Parque Escolar, de Centros Escolares com previsão de salas de jardim-de-infância em territórios que já havia essas respostas das IPSS a funcionar. Connosco passou-se isso, pois começaram a abrir no ano passado os centros escolares em Ermesinde, o que representa também uma forma de concorrência desleal relativamente aos jardins-de-infância das IPSS, já que a tabela de pagamento das famílias é a mesma, tanto nas instituições sociais como na rede pública, mas as Câmaras que gerem esses equipamentos, nuns casos não levam nada e noutros levam apenas 50%. As tabelas de pagamento são as mesmas só que as entidades públicas não as cumprem e nós cumprimos”.
O também assessor jurídico da CNIS demonstra de forma bem clara o que tem afectado a instituição que preside e muitas IPSS por este Portugal fora, criando-lhes graves problemas de tesouraria, mas não só, pois muitas delas têm investimentos passados para saldar.
“Já há quatro anos que temos apresentado resultados de exploração positivos, embora tenhamos uma situação de dívida a fornecedores que causa alguma preocupação. Por isso é que ainda não temos a situação financeira equilibrada”, revela Henrique Rodrigues, indicando o caminho escolhido pela instituição: “Foi por isso que pedimos um empréstimo no âmbito do Fundo de Reestruturação do Sector Solidário (FRSS), precisamente para resolver a questão da dívida a fornecedores e assim também sentirmos algum alívio. Temos vindo a apresentar diminuição de despesa com pessoal, com materiais de consumo corrente e fornecimentos externos. E tem sido graças à diminuição dessas despesas que temos conseguido manter a gestão equilibrada”.

PROJECTOS ADIADOS

Para manter o barco a navegar, apesar das águas agitadas, alguns dos desejos da instituição terão que esperar dias de maior acalmia.
“Há dois projectos antigos, mas enquanto a situação financeira não estiver resolvida não será fácil avançar. Sou adepto pagamento das dívidas antes de ostentar iniciativas que enchem o olho, portanto só depois de regularizar a situação com os fornecedores é que poderemos pensar nisso”, refere o líder da instituição.
A intenção passa por reconverter o antigo cinema de Ermesinde, situado no centro da cidade e junto às escolas, ao abandono há 30 anos, dando-lhe uma dupla utilização: “Quer como centro de apoio a crianças das escolas públicas da zona, no sentido de trabalhar o sucesso educativo delas, fundamentalmente através das artes, mantendo assim o espaço vinculado às actividades artísticas e cenográficas. E também construir um CAO, nessas vertentes, para trabalho com deficientes intelectuais, pois não há em Ermesinde um equipamento de apoio a estas pessoas”.
O outro projecto é para implementar num espaço fronteiro ao edifício-sede da instituição, junto ao antigo largo da feira.
“O antigo campo da feira de Ermesinde, um espaço muito agradável e arborizado, onde fazemos muitas actividades, esteve algum tempo abandonado e à incúria. No entanto, temos vindo a adquirir algumas casas que envolvem o largo da feira, uma delas já utilizada no âmbito da formação profissional e uma outra onde é a redacção do «A Voz de Ermesinde», mas a ideia é, quando tivermos mais algumas adquiridas que nos permitam fazer uma frente completa, construir um conjunto de residências assistidas que funcione em ligação com o lar de idosos. A ideia é receber pessoas ou casais que tenham mais autonomia e que não precisem de toda a bateria de respostas que o lar dá”.
Tal como a instituição, nasceu, meses depois, com o nome de «Sopa dos Pobres», entretanto, no ano de 1960, mudou para «A Voz de Ermesinde» e hoje “é uma espécie de arquivo mais completo sobre a vida de Ermesinde nos últimos 60 anos”.
O jornal é, na palavra de Henrique Rodrigues, “um órgão de referência na comunidade e não apenas, nem predominantemente, um porta-voz do Centro Social”.

CENTENÁRIO

Quando o SOLIDARIEDADE visitou a instituição de Ermesinde o dia era especial. O senhor António Cardoso completava 100 anos de vida, um marco sem dúvida, especialmente tendo em conta a jovialidade que evidenciava. Um pequeno lanche para alguns familiares, amigos, colaboradores e dirigentes da instituição assinalou a data festiva para este homem que nasceu no ano em que a I Grande Guerra começou, mas também para a instituição.
À entrada da sala onde decorreu a celebração uma série de quadros pintados pelo aniversariante, emprestavam outro colorido e diversos cenários ao festejo.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-06-09



















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