ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

O Papa e o califado do terror

No regresso da sua viagem à Coreia do Sul, o papa Francisco fez aos jornalistas uma afirmação que terá chocado alguma gente, mesmo entre aqueles que habitualmente se afirmam seus admiradores. O Sumo Pontífice deixou claro que em determinadas situações limite, a guerra pode ser legítima. Quando um povo está condenado ao genocídio, a sociedade internacional tem o direito – João Paulo II diria o dever - de intervir, mesmo militarmente, na sua defesa. Claro que o papa ressalvou que uma iniciativa dessas deve ter sempre a caução da ONU, mas o princípio do direito à intervenção internacional voltou a ser proclamado, desta vez pela voz do papa Francisco.

O sumo pontífice fez-se eco desse direito, a propósito do que está a acontecer no Iraque e na Síria, onde um auto proclamado califa reivindica a sucessão de Maomé, e por consequência, a honra e a responsabilidade de governar, política e religiosamente o chamado “Estado do Iraque e do Levante”. Por outras palavras, quase todo o Médio Oriente.

Uma tal hipótese não preocuparia demasiado o papa, se não fora o caminho que está a ser percorrido pelos responsáveis do pretenso califado para o construírem, um caminho cujos alicerces são o ódio e a violência. Não se trata propriamente de uma novidade, face à história recente dos múltiplos movimentos radicais islâmicos que actuam no Médio Oriente ou no continente africano. A única novidade deste califado está na intensidade e nos excessos de que se têm revestido essas manifestações de ódio e violência. E ainda a aparente facilidade com que os seus combatentes vêm conquistando territórios e populações..

O ódio e a violência que caracterizam o novo califado abatem-se sobre todos aqueles que professam ideias ou vivem costumes diferentes das regras definidas pelos novos senhores: hereges, como os xiitas, infiéis como os cristãos, e todas minorias que, ao longo da História, resistiram às mais diversas purgas e perseguições, como é o caso dos yazidis. Foi aliás a situação trágica deste povo que fez despertar a consciência da comunidade internacional para os crimes que estão a ser cometidos impunemente pelos djhiadistas do chamado estado islâmico.

Este é um daqueles casos em que uma intervenção internacional parece ter plena justificação. O papa veio dar força a quantos entendem que a ONU se deve empenhar vivamente e eficazmente na protecção de todos aqueles a quem é negado o direito mínimo de viver em liberdade as suas crenças. Mas a história recente ensina que as intervenções internacionais, além da sua pouca eficácia, levantam outros problemas éticos e políticos que podem ser tão graves como aqueles que se pretendem solucionar. E é com esta certeza que o novo califado vai edificando o seu reino de terror.

 

Data de introdução: 2014-09-05



















editorial

Plano interministerial e intersectorial para a Saúde e Longevidade da população (II)

Pelo Despacho n.º 2367/2025, “o XXIV Governo Constitucional, em consonância com os compromissos assumidos no seu programa de governação e no Compromisso de Cooperação para o Setor Social e Solidário para o biénio...

Não há inqueritos válidos.

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

Em memória de Eugénio Fonseca
Perdemos em agosto Eugénio Fonseca, de quem fui, nestes últimos anos, companheiro de colunas de opinião aqui no Solidariedade. Partiu um homem bom. Esta homenagem nasce da amizade, do...

opinião

EUGÉNIO FONSECA (1957-2026)

Calou-se uma voz importante da solidariedade
Eugénio Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa de Voluntariado, morreu a 12 de agosto de 2026, aos 69 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória.