HENRIQUE RODRIGUES

"Quase se vê daqui, o verão" (Eugénio de Andrade, “O Peso da Sombra”)

1 – A evolução da pandemia a partir de Março de 2021, após aqueles meses negros de Janeiro e Fevereiro, em que no nosso País era como se caísse um avião de passageiros por dia, não sugeria um Verão assim, um Verão com toques de “soturnidade” e “melancolia” (Oh, Cesário Verde!): ainda com máscaras na cara, mantendo a prudente distância e as demais medidas de afastamento e de desconfiança relativamente aos outros, vivendo “em bolha”, no que tem sido o timbre do nosso viver coletivo desde Março de 2020.

A diminuição progressiva do número de infecções e de mortes, que, entre Março e Maio de 2021,   permitiu o desanuviamento diário da tensão em que vivíamos desde havia um ano, parecia indicar um caminho de sentido único – e esse sentido era o do regresso à vida passada antes do Covid-19, à normalidade, sem mortes nem sustos.                      

Não aconteceu assim: erros próprios – abertura precipitada, designadamente de eventos desportivos - e má fortuna – uma variante vinda da Índia – reverteram o caminho que parecia endireitado e fizeram regressar o cortejo de infortúnios devidos à infecção. 

Em grau muito menor, é certo, devido à vacinação de grande parte da população adulta – o que tem permitido manter o SNS em condições de assegurar os cuidados possíveis a quem surge infectado e diminuir os índices de letalidade por causa da Covid-19, designadamente entre os mais vulneráveis, os mais velhos.

Mas o certo é que, “per fas et per nefas”, o Verão de 2021 ainda não trouxe consigo o apaziguamento connosco e com a vida que costuma acompanhar o decurso desta estação, que convida aos encontros, às festas, às noitadas e aos amores.

Permanece sempre um desconforto, uma tensão, um receio - mesmo quando o sol, ou o mar, ou a noite, ou o luar, apelam à harmonia com a vida e com o cosmos. 

Será já o segundo ano em que, por causa da pandemia, na minha aldeia de Abragão não haverá o arraial em honra de Nossa Senhora da Saúde, que, no primeiro fim-se-semana de Setembro, marca a transição entre as férias e o tempo de trabalho e prenuncia as colheitas dos frutos da terra, que acompanham o decurso desse mês até ao seu final, sob a invocação de S. Miguel; e que, num plano mais gregário, constituiu desde sempre pretexto para uma espécie de reunião plenária da família alargada. 

2 – Será também pelo S. Miguel que os partidos e as candidaturas independentes colherão, nas eleições autárquicas, o fruto do que semearam no passado mais próximo.

Será difícil, também por tal razão, que se verifiquem grandes alterações relativamente aos resultados de há 4 anos.

Não acredito muito nas boas notícias que costumam ser-nos municiadas pelas autoridades públicas no que respeita ao desenvolvimento e resultados do combate à pandemia.

São sempre um êxito!

Creio que nunca ouvi ninguém avaliar negativamente o resultado das políticas ou das acções em que tenha tido parte, preferindo silenciar esse resultado, quando menos favorável; e encontrando qualquer aparência de virtude, para poder exibi-lo como devido a si próprio.

Também não foi agora que isso mudou.

Mas o certo é que, segundo tenho lido na imprensa, a propaganda foi eficaz – e as sondagens são unânimes na avaliação positiva que os portugueses fazem quanto ao modo como o Governo tem lidado com a situação, não obstante termos percorrido grande parte deste tempo de pandemia com os resultados mais negativos a nível europeu (e mesmo mundial, num certo período).

A ideia que ficou nos eleitores assenta mais nos resultados que nos foram apresentados como positivos, muito embora sem indicação de resultados comparáveis noutros países. 

Outra das percepções que ficou deste período no eleitorado – e esta com correspondência com a realidade – foi a do empenhamento, da eficácia e do protagonismo do poder local no âmbito do combate à pandemia, organizando no terreno e assegurando a articulação dos organismos e entidades, quer públicas, quer do Sector Social, de forma a lograr a melhor gestão dos recursos disponíveis e a diminuir, por tal razão, os efeitos mais devastadores da infecção.

Tal papel foi ainda mais relevante quanto é conhecida a dificuldade de articulação directa entre serviços da Administração Pública, normalmente de costas voltadas entre si – de que são histórico exemplo negativo as relações entre a Saúde e a Segurança Social.

Creio que também esse papel será objecto de validação eleitoral em Setembro próximo, pelo que antevejo com dificuldade que as eleições autárquicas venham a traduzir-se em alterações significativas no panorama actualmente existente.

3 – A tarefa não será fácil, pois, para as oposições.

Se é sempre difícil remover quem se encontra a desempenhar os cargos – já o Marquês de Pombal dizia que, para retirar um homem de sua casa, mesmo depois de morto, são precisos quatro -, maior a dificuldade quando a percepção generalizada do eleitorado é positiva quanto ao desempenho da generalidade dos autarcas no passado próximo; sendo anda certo que a tentação e a motivação do voto, em momento de crise, que a pandemia manterá em lume brando, é tendencialmente conservadora – no sentido de manter quem está …

Não ocorrerá, por certo, qualquer pretexto para reproduzir o procedimento instituído por António Guterres, há 20 anos, quando se demitiu, na sequência dos resultados nas autárquicas, designadamente por ter perdido o Porto, para Rui Rio, e Lisboa, para Santana Lopes: ambos hoje de novo na berlinda, embora por diferentes razões.

Na ocasião, e apenas por tal razão, perdeu-se o Primeiro-Ministro mais competente e mais próximo das pessoas que o País já teve.

E aqui fica, em homenagem, o breve poema de Eugénio de Andrade, também ele da Beira-Baixa, e do Fundão, a quem roubei o título da crónica, neste Verão que só quase se vê: 

“Quase se vê daqui, o Verão:
a luz crispada sobre o muro,
a haste do trigo prestes a partir,
essas crianças cantando nuas
nas ruínas da memória,
uma abelha talvez equivocada,
era um dia que dava para o mar” 

Henrique Rodrigues, Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2021-08-12



















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