JOSÉ A. SILVA PENEDA

O mundo do trabalho e a inflação

Nas últimas décadas, os sistemas económicos no mundo mudaram muito. Mudou a forma como o valor económico é criado, surgiram novos modelos de negócio, abriram-se mercados até aí desconhecidos, inovou-se na forma de comercializar e as novas tecnologias alavancaram fortemente as atividades económicas. Todas estas mudanças tiveram consequências nas relações de trabalho, que passaram a ser mais instáveis e inseguras.  

Em certa medida isso foi bom para o mundo em geral, desde logo porque alavancou o desenvolvimento em zonas com debilidades económicas e sociais e diminuiu em grande número as pessoas que viviam abaixo do limiar da pobreza. Mas temos de reconhecer que essas mudanças não foram acompanhadas por um reforço de regulação global. A nova ordem mundial transformou-se numa disputa de oportunidades, nem sempre através dos meios mais legítimos, evidenciando práticas injustas, com consequências negativas para o fator trabalho.

Foram criadas nos finais do século passado e no princípio deste século expectativas que não se confirmaram. Acreditou-se que a globalização e a revolução tecnológica iriam proporcionar as condições para uma mudança qualitativa para melhor quanto à evolução do trabalho. Pensou-se que os trabalhadores, graças ao crescimento económico, à evolução da tecnologia e ao aumento da produtividade, passariam a ter melhores salários e mais tempo para se dedicarem à família e aos tempos livres. Essa expectativa generalizou-se por todo o lado. Houve, de facto, a ilusão que as mudanças tecnológicas associadas ao crescimento económico iriam ajudar a criar as condições para o surgimento de postos de trabalho mais dignos e melhores remunerados.

Esta não confirmação de expectativas teve consequências a nível político. Quando as expectativas tão profusamente criadas não se confirmam não é a só a desilusão que surge. É também um sentimento de desistência para uns, revolta para outros o que, a nível político, é aproveitado por movimentos de pendor mais radical. A evolução no mundo do trabalho está assim associada ao risco da radicalização política em que o mundo está mergulhado e à incerteza sobre o destino das democracias liberais.  

Ao constatar o erro de se ter criado falsas expectativas, como resultado da globalização e das inovações da tecnologia lembro o pensador Fukuyama, que falhou na sua previsão do fim da história com a queda do Muro de Berlim, ao vaticinar que as sociedades democráticas liberais seriam dominantes no panorama universal e que existiria um grande consenso sobre o seu desenvolvimento assente numa maior prosperidade, conquistada em sociedades livres.  

Acontece que o mesmo Fukuyama no seu recente livro “O Liberalismo e os Seus Descontentes” já não fala desse fim da história. Aqui, ele escreve sobre o começo de outra história porque entende que os regimes democráticos hoje estão sob um duplo ataque, à direita e à esquerda. Os dois extremos têm em comum a negação da ideia central do liberalismo.

Para acreditar que a democracia será sempre o mais forte de todos os regimes não pode acontecer que largas camadas da população vivam num tempo em que lhes é coartada a ambição. E a realidade mostra que são muitos os que deixaram de acreditar no elevador social e nos discursos que anunciam mais crescimento económico, porque ele se tem revelado residual e, quando existe, só parece beneficiar uma minoria.

O surgimento da guerra na Ucrânia tornou ainda o mundo mais complexo e incerto e com consequências também para o nosso País que sofre, entre outros, o problema da inflação. A este respeito faço votos para que as consequências da batalha contra a inflação não recaiam de forma mais dominante sobre a grande a maioria dos que trabalham. Por isso, penso que é decisivo que se defina uma política de relançamento da economia, acompanhada de uma justa redistribuição de rendimentos.

Em Portugal assistimos ao aumento da pobreza e das desigualdades (os últimos dados do Eurostat apontam para 2,3 milhões de pobres, dos quais mais de 11% trabalham), acentua-se o custo de vida, os salários, especialmente para os mais jovens, mesmo altamente qualificados, são baixos e a classe média vai desaparecendo. Como consequência, as pessoas abandonam o País. Quando se compara o número de emigrantes com o número de residentes, Portugal ocupa hoje o último lugar da União Europeia. São cerca de 6 milhões de portugueses espalhados pelo mundo. Acima de nós, a emigrar, só estão os países em que a população teve de fugir devido à guerra ou desastres naturais.

Esta situação obriga a um forte apelo ao espírito de compromisso na busca de soluções. E esse espírito de compromisso tem de ser cada vez mais reforçado, não só a nível da cooperação internacional e do multilateralismo, mas também a nível nacional.

A dignidade no mundo do trabalho não é só consequência do que pode estar expresso na lei. Tem de ser mais do que isso. Tem de ser assumida especialmente como uma real mais-valia para a empresa e para a dignificação de quem lá trabalha e só será completa se nela forem compatibilizadas, em simultâneo, as perspetivas sobre a redução fiscal para as empresas, a garantia do aumento do investimento e uma política de distribuição de rendimentos equilibrada.

 

 

Data de introdução: 2022-10-05



















editorial

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