HENRIQUE RODRIGUES

Mediação Social

1 – Os Contratos Colectivos de Trabalho em vigor no âmbito das Instituições Particulares de Solidariedade Social consagram a profissão de mediador sócio-cultural, que tem como “função colaborar na integração de imigrantes e minorias étnicas, na perspectiva do reforço do diálogo intercultural e da coesão e inclusão sociais, para tal colaborando na resolução de conflitos sócio-culturais e na definição de estratégias de intervenção social, colaborando activamente com todos os intervenientes dos processos de intervenção social e educativa, facilitando a comunicação entre profissionais e utentes de origem cultural diferente, assessorando os utentes na relação com profissionais e serviços públicos e privados, promovendo a inclusão de cidadãos de diferentes origens sociais e culturais em igualdade de condições.”

A inclusão desta profissão nos Contratos Colectivos de Trabalho deveu-se ao facto de muitas Instituições Particulares de Solidariedade Social disporem nos seus quadros de pessoal de trabalhadores com esta formação, desenvolvendo as suas funções no sentido de promover a inclusão de pessoas pertencentes a minorias étnicas ou sociais, preservando o diálogo intercultural a que se refere a descrição de funções constante do CCT.

Esta previsão constante da contratação colectiva chama a atenção para uma realidade que muitas vezes não é associada aos diversos trabalhos e domínios em que estamos habituados a ver as IPSS assegurarem o acolhimento dos grupos mais vulneráveis da população.

Na verdade, embora a percepção pública não acompanhe a dinâmica do trabalho das IPSS, é cada vez mais generalizado o reconhecimento de que a estrutura que, em Portugal, assegura o sistema de protecção social é constituída pela rede de Instituições Solidárias, que, da aldeia mais recôndita de Trás-os-Montes até ás Fajãs da Ilha das Flores, numa rede minuciosa e capilar, está atenta às necessidades e à esperança dos mais pobres, dos mais desfavorecidos ou dos mais indefesos.

Na verdade, hoje é do conhecimento geral que o acolhimento das crianças em creche, a fim de conciliar a vida profissional com a vida familiar dos pais, é na grande maioria assegurado pelas IPSS; e o mesmo acontece com os lares, os centros de dia ou o serviço de apoio domiciliário para os mas velhos; podendo dizer-se o mesmo dos equipamentos e serviços voltados para as pessoas com deficiência, em que as IPSS asseguram praticamente a totalidade das respostas existentes – como também sucede relativamente às crianças e jovens em risco.

Mas “há mais mundos”, como diria José Régio.

Para além dessas respostas sociais mais tipificadas, e que constituem uma espécie de sistema organizado territorialmente, o Sector Social – onde avultam as IPSS – assegura a mediação sociocultural nos territórios mais sensíveis e mais marginalizados.

É também por isso que foi às associações representativas dos moradores dos bairros sociais da Grande Lisboa – IPSS, Associações de Moradores … - que o Governo recorreu para tentar esbater a tensão que se gerou nesses mesmos bairros e abrandar os efeitos da indignação que se seguiu à morte, às mãos da polícia, de um habitante do Bairro do Zambujal, em Loures, chamado Odair Moniz.

Trata-se do reconhecimento do papel de mediação que tais organizações desempenham, aí onde falta a intervenção dos serviços públicos que garantam a satisfação das necessidades básicas dos moradores, “promovendo a inclusão de cidadãos de diferentes origens sociais e culturais em igualdade de condições” (para citar de novo a descrição das funções dos mediadores socioculturais,)

Como foi referido a propósito de incidentes em alguns desses bairros, o único contacto que alguns deles conhecem com os serviços do Estado é a polícia de choque.

(E também as ameaças de despejo dos bairros municipais, como veio a verificar-se no rescaldo dos incidentes)

 

2 – Escolho da descrição de funções de mediador sociocultural acima citada o seguinte segmento: “assessorando os utentes na relação com profissionais e serviços públicos e privados.”

Quer dizer, cabe aos mediadores socioculturais e às Instituições que os integram assegurar uma espécie de acompanhamento tutorial – como têm os alunos nos colégios caros -, no sentido de tomar sob a sua responsabilidade o acesso aos direitos conferidos à população em geral, em benefício de quem deles é excluído, por sistema ou por acinte.

Na verdade, essa assessoria, isto é, o acompanhamento de proximidade dos membros das minorias desguarnecidos da protecção pública, constitui um veículo seguro para o acesso aos serviços públicos essenciais.

Pode até constituir também uma protecção contra ataques à integridade física ou à própria vida.

Hoje, dia em que escrevo a crónica, 3 de Novembro, o jornal “Público” reconstitui, numa extensa e fundamentada peça, a detenção pela PSP de dois contramanifestantes numa manifestação do Chega, de 29 de Setembro – em que terão proclamado palavras de ordem como “fascismo nunca mais”, tendo sido nesse contexto agredidos por elementos que integravam a manifestação do partido da extrema-direita.

A peça tem o título “Anatomia de uma detenção pela PSP” e relata a detenção dos contramanifestantes agredidos e a indulgência perante os manifestantes agressores.

Há mais de 20 anos, Alberto Costa, então Ministro da Administração Interna, perante actuação desproporcionada da PSP, declarava: “Esta não é a minha polícia.”

Parece que continua a não ser – como a própria Ministra da Administração Interna sugere!

 

3 – Disso não tenho dúvidas. Amanhã, dia 5 de Novembro, voto Kamala Harris.

A propósito, quer de dúvidas, quer da necessidade de cortar as cabeças da hidra, aqui fica um breve poema de David Mourão-Ferreira:

 

 

 

COLUNA

“No alto da colina apenas a coluna

E a manhã decapita as cabeças da hidra

Mas vão todas gritando ao cair uma a uma

A dúvida ou a vida A dúvida ou a vida

 

Se regressas ao ponto em que estava a coluna

Vês somente no chão as cabeças da hidra

E decifras agora ao vê-las uma a uma

A dúvida é a vida A dúvida é a vida”

 

Henrique Rodrigues – Presidente do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2024-11-08



















editorial

Voltar a casa

Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

Não há inqueritos válidos.

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

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