EUGÉNIO FONSECA

Voluntariado de proximidade: missão das IPSS na era digital

A propósito do Dia Internacional dos Voluntários, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU), que decorreu no passado dia 5, permitam-me que volte a este tema. Ele é de crucial importância para todas as IPSS, pois é na doação do tempo de muita gente nos seus órgãos sociais ou noutras tarefas, que se pode evidenciar a sua identidade solidária. Para este ano, a ONU propôs como tema: “Cada contributo conta”. Trata-se de um apelo dirigido a todas as pessoas para que ninguém se demita das suas obrigações de colaborar, cada um/a com as capacidades e no âmbito geográfico a que tiver maior alcance, na construção do bem-estar individual e coletivo. A maioria das vezes, este alcance é a distância que nos separa do vizinho ou de qualquer Organização que tenha como finalidade a construção do bem comum. Neste âmbito, estão bem posicionadas as IPSS.

Para Portugal, é de relevante pertinência o tema referido, pois estamos na cauda da Europa no que respeita à prática do voluntariado. Na verdade, somos um povo excelente em ações pontuais de solidariedade, sobretudo na resposta a qualquer tipo de calamidade, mas temos muita dificuldade em assumir compromissos mais duradouros. O próximo ano vai ser crucial para que se alcance tão urgente objetivo de mobilizar a sociedade portuguesa para o crescimento do voluntariado. Esta relevância é acrescida por se assinalar no próximo ano, também por iniciativa da ONU, o Ano Internacional dos Voluntários dedicados aos “Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável (ODSs)”. As IPSS estão convocadas para se unirem e rasgarem caminhos de futuro para o Voluntariado, em Portugal, tendo como mote a colaboração para que se atinjam os ODS.

Para a concretização destes objetivos há que ter em consideração a influência dos instrumentos digitais. É uma vertente incontornável pelos desafios que coloca também à prática do voluntariado de proximidade. Não rejeito a possibilidade da utilização das novas tecnologias digitais, incluindo a inteligência artificial, em emergentes respostas às necessidades de muitas pessoas. Sei que algumas IPSS já cuidam desta área com a criação de programas que visam o combate à iliteracia digital, conseguindo que muita gente saiba lidar, no essencial, com as novas tecnologias informáticas. A Administração Pública, e não só, parte do pressuposto que todos os portugueses têm, em sua casa, um computador e ligações por via do WiFi. O que se pretende que sejam medidas de inclusão social, podem tornar-se no seu contrário. Vejo como potencial, para a prática do voluntariado, a criação de programas de combate à infoexclusão, realizados por IPSS.

Todavia, é bom ter sempre presente que o potencial destas tecnologias nunca pode substituir o valor que tem a relação pessoal. Há quem dedique grande parte do seu tempo a manter relacionamentos virtuais, esquecendo, como nos preveniu o saudoso Papa Francisco, que estes meios nos tornam vizinhos, mas não nos fazem irmãos, num apelo evidente à construção da amizade social.

Porém, a proximidade genuína exige contacto humano em que se possam entrecruzar olhares e, sempre que necessários, se darem abraços de conforto e de encorajamento. Sem contradizer nada do que, até agora, referi, quero deixar como componente necessária, porque mais consistente, a realização do voluntariado de proximidade humana. Ao cuidar-se desta vertente mais humanizada, contribui-se para que não se perca a identidade, subjacente à doação do tempo. O voluntariado local exige esta condição, na medida em que facilita a identificação das necessidades existentes na sociedade e permite a elaboração de programas que respondam a essas necessidades, sempre que possível, com o apoio dos destinatários.

É importante não esquecer que há determinadas problemáticas sociais que exigem o incremento de políticas públicas. Há, contudo, que ter em conta que essas medidas não podem esquecer a sua concretização local para que possam ser mais eficazes e eficientes. A experiência diz-nos que, em muitos casos, a implementação dessas medidas está eivada de cargas burocráticas que não permitem o seu fácil acesso. Enquanto, não formos capazes de vencer esse adamastor social que é a “burocratite”, coloquemos, as IPSS e o seu voluntariado ao serviço da sua “descomplexização”.

Conseguirmos este desiderato é uma forma muito concreta e urgente de minorar as desigualdades sociais e, em termos assim, uma sociedade mais justa e humana.

 

Data de introdução: 2025-12-10



















editorial

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Sucede que a falta de motivação das IPSS para colocarem a sua rede de ERPI ao serviço do escoamento das situações de internamento hospitalar inapropriado, nas condições atualmente em vigor, se afigura amplamente justificada (...)

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