ASSOCIAÇÃO VAI AVANTE - GONDOMAR

Da pobreza dos antigos mineiros à pobreza dos tempos modernos

Nasceu na tasca do bairro por iniciativa de um grupo de amigos no lugar das Bocas, em S. Pedro da Cova. O “parto” deu-se em Março de 1945, mas só em 1962 é que ficou legalizada enquanto associação. À época era conhecida como uma cruzada de bem-fazer, destinada a ajudar os mais necessitados, uma designação que agora se transformou em solidariedade social.

Numa freguesia pobre, com uma população essencialmente mineira e sob a ditadura do Estado Novo, as primeiras iniciativas sociais passaram pela distribuição de alimentos e medicamentos a quem precisava, o motor de arranque do trabalho da Associação Social, Recreativa, Cultural e Bem-Fazer “Vai Avante”, que actualmente é uma das maiores instituições particulares de solidariedade social do concelho de Gondomar. Num dos documentos da associação relembra-se que “durante muitas gerações, foram as Minas de S. Pedro da Cova um dos grandes alicerces da economia do país e da Região Norte. A sua dinâmica tornava-se visível a quem percorresse a região do Grande Porto, confrontando-se com o vaivém de cestas metálicas, movimentando-se ao ritmo febril da actividade do complexo mineiro (...)”. Com a sua extinção, o desemprego alastrou pela freguesia e pelo concelho e com ele vieram muitos dos problemas sociais que constituem áreas de intervenção da “Vai Avante”.

Erigida sobre a ditadura do Estado Novo, a associação viu-se confrontada com o papel centralizador e autoritário do regime, que proibia a liberdade dos cidadãos se reunirem e associarem, o que dificultou muito a compra de um terreno para construir a sede, que hoje está situada no lugar de Tardariz. O acesso das mulheres ao trabalho associativista também não era comum e bem visto na época, pelo que a participação feminina quase não existia e este “quase”, porque os estatutos obrigavam a inclusão de elementos do sexo feminino, uma formalidade que não passava do papel para a prática.
Voltada para a área desportiva e recreativa, só mais tarde é que a associação diversificou as actividades, adquirindo um papel mais interventivo a nível social, cultural e formativo, alargando a sua acção às mulheres e crianças, já depois do 25 de Abril. “Tínhamos muitas crianças que andavam pelas ruas sem qualquer tipo de respostas”, explica Fernando Duarte, presidente da “Vai Avante” há quase 20 anos. “Apercebemo-nos também que existiam muitos idosos que quase nunca saíam de casa e a associação quis ajudar essa população e começou a fazer acordos com a Segurança Social para a criação de valências que permitissem enquadrá-los”.

A área de intervenção da associação é quase exclusivamente a vila de S. Pedro da Cova, uma freguesia com graves problemas sociais que espelham-se, por exemplo, no facto de ser a freguesia do concelho com maior percentagem de beneficiários do rendimento social de inserção, com grande percentagem de abandono e absentismo escolar, situações de negligência e de maus-tratos a crianças e jovens, segundo dados de Maio de 2006 da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens local.

Com 85 colaboradores, a associação intervém directamente sobre meio milhar de pessoas, com grande destaque para a população infantil (416 utentes a nível de infância), nas valências de ATL, creche e jardim-de-infância. Refira-se que Gondomar, segundo os Censos de 2001, apresenta a terceira taxa de rejuvenescimento mais elevada do Grande Porto, à frente de concelhos como Vila Nova de Gaia ou Maia, destacando-se igualmente da Região Norte e da média nacional, onde para cada idoso com mais de 65 anos, existem cerda de seis indivíduos em idade activa (15-64 anos). Este facto aliado ao concelho ser considerado como um dos dormitórios da cidade do Porto, faz com que a mobilidade da população activa seja elevada (de 60,6% da população que diariamente se desloca para os seus locais de trabalho, 28,4% fá-lo dentro do concelho e 20% para o Porto, segundo dados de 2003 do Instituto Nacional de Estatística, presentes no Diagnóstico Social de Gondomar), o que pressupõe a existência de respostas sociais para as crianças e idosos que ficam na terra. “Temos uma grande carência de jardins-de-infância, uma vez que os estatais abrem às nove da manhã e fecham cedo, o que não serve as necessidades dos pais que vão trabalhar para longe de casa”, corrobora Helena Barros, directora de serviços da instituição.

Com a nova política na área da educação para os ATL’s, Helena Barros mostra-se apreensiva, principalmente pela “indefinição que se vive”. A instituição possui três ATL, com 156 crianças, todos abertos das sete da manhã às oito da noite. “Não sei como é que os pais vão fazer se fecharmos, uma vez que eles precisam realmente de um horário alargado, porque muitos vêm de transportes públicos do trabalho e chegam tarde a casa, além de que não têm rectaguarda familiar para as crianças”. A directora diz também que já havia pedido a reconversão de um dos espaços de ATL em jardim-de-infância, mas que, até agora, não obteve qualquer resposta. “Já faz quatro anos que pedi essa reconversão, muito antes desta polémica, e chegou a vir cá uma técnica do Ministério da Educação que nos disse que tínhamos condições para tal, mas até hoje nunca nos foi dada resposta para o efeito”, lamenta.

A existência de quatro grandes bairros sociais em S. Pedro da Cova é, segundo estes dois dirigentes, um dos factores que condiciona a proliferação dos tantos problemas sociais. “Temos miúdos de dezoito anos que apenas têm o quarto ano de escolaridade e não querem saber da escola. Muitos pais, não estão sensibilizados para a importância da formação e não se importam com a situação”, afirma Helena Barros. Fernando Duarte refere igualmente o elevado índice de alcoolismo e de desemprego que aliado ao défice de formação arrasta problemas mais graves como as toxicodependências e a delinquência. “A autarquia foi construindo habitação social e concentrou quatro grandes bairros aqui em S. Pedro, mas apesar dos equipamentos sociais, muitos dos quais dirigidos por nós, é difícil fazer face a tantas problemáticas”, diz o presidente.

Os constrangimentos financeiros são, como na grande maioria das instituições de solidariedade social, outro dos factores que impede a aplicação de mais projectos e condiciona o trabalho da associação. “A parte financeira é sempre uma dor de cabeça, pois para ter um quadro de pessoal adequado às necessidade é preciso renumerá-lo de forma justa e a Segurança Social por exemplo, só paga doze meses e não catorze”, refere Helena Barros. O programa “Clique Solidário - Espaço Internet”, financiado pelo Fundo Social Europeu, FEDER e Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, é uma das acções que está em risco de acabar já em 2009, por falta de verba. Com o objectivo de sensibilizar os utentes e a comunidade para a importância das Tecnologias da Informação, incrementar o uso dos computadores e da Internet, o programa deixou de ter financiamento no final do ano passado e a associação não sabe até quando consegue lavá-lo “avante”. “Temos muita procura, principalmente agora com o programa “Novas Oportunidades”, pois muitas pessoas não têm computador em casa e vêm para cá, mas infelizmente, sem apoios é difícil manter as portas abertas”, lamenta a directora de serviços.

Apesar das dificuldades, a “Vai Avante” oferece um conjunto muito diversificado de actividades, desde teatro, aulas de dança, futebol, mantendo viva a sua função inicial essencialmente voltada para o lazer e recreio e tornando-se assim num pólo dinamizador de S. Pedro da Cova. Já no próximo mês, Fernando Duarte prevê a inauguração de uma nova creche, financiado a 70 por cento pelo programa PARES e em parceria com a autarquia gondomarense. Além disso, o presidente espera ver aprovado pelo mesmo programa e ainda em 2008, a construção de um centro de dia, “uma das lacunas da nossa instituição e que faz muita falta à população que servimos”, afirma.

 

Data de introdução: 2008-02-07



















editorial

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