APPACDM DE VILA NOVA DE GAIA

Uma IPSS de referência com gestão empresarial

Vila Nova de Gaia é um dos maiores concelhos do país, com cerca de 300 mil pessoas, segundo os dados apresentados no Diagnóstico Social do concelho e que tiveram como base os Censos 2001. Os levantamentos demográficos e os mesmos censos indiciam que mais de 20 mil são portadoras de deficiência, das quais 4500 na área mental. Segundo Mário Dias, presidente da Associação Portuguesa dos Pais e Amigos do Cidadão com Deficiência Mental de Vila Nova de Gaia (APPACDM), as instituições particulares de solidariedade social concelhias dão resposta a cerca de 700 pessoas e o dirigente pergunta: “Onde estão os outros?”.

A pergunta de retórica enceta a conversa sobre a APPACDM de Vila Nova de Gaia, uma IPSS que tem como principal objectivo promover a integração da pessoa com deficiência mental. Com berço em Lisboa, a APPACDM constitui uma rede de estruturas que se expandiu por todo o país e deu origem a quase três dezenas de associações, que actualmente constituem a Federação Portuguesa para a Deficiência Mental – Humanitas.

Em Gaia, nasceu em 1973 pelas mãos de um grupo de pais e técnicos que trabalhavam nesta área e esteve integrada na delegação do distrito do Porto até 1993, quando se tornou autónoma.
Iniciou a sua actividade com uma unidade sócio-educativa (então chamada centro de educação especial) destinada a pessoas em idade escolar desenquadradas do sistema público de ensino. A instituição foi diversificando as respostas e actualmente promove actividades que permitem o desenvolvimento e estimulação das capacidades dos cidadãos com deficiência mental desde o nascimento até à vida adulta, não esquecendo o apoio às respectivas famílias (ver B.I). Possui cinco equipamentos distribuídos pelo concelho e dá resposta a cerca de 230 pessoas de várias faixas etárias e diferentes níveis de deficiência mental. Participa na Rede Social de Vila Nova de Gaia e colabora com outras instituições da comunidade em projectos e actividades diversas relacionadas com a promoção da pessoa com deficiência mental.

Uma visita à instituição revela de imediato uma panóplia de actividades que ocorrem em simultâneo e que preenchem o dia dos clientes, designação adoptada pela direcção relativamente aos utentes. No atelier de Arraiolos, são vários os jovens que se dedicam à confecção de tapetes que depois são vendidas a amigos e conhecidos. A monitora, Maria José Gonçalves, circula entre as diversas mesas e vai dando uma ajuda aqui e ali. A trabalhar na instituição há 8 anos, diz que o trabalho que desenvolve é “muito gratificante, porque eles demonstram com muita alegria quando gostam da actividade”. A opinião é partilhada por Teresa Teixeira, monitora do atelier de movimento, música e drama, que há 15 anos desenvolve a sua actividade profissional na área da deficiência. “Estes meninos entregam-se com mais dedicação às actividades que propomos, com maior intensidade, também porque muitos deles quando saem daqui ao fim do dia, e vão para casa, ficam completamente parados”, explica a técnica que todos os anos participa em variadíssimos eventos na vertente de expressão artística com grupos da instituição, entre eles o Festival da Canção para Pessoas com Deficiência Mental.

Na direcção da instituição desde 1983, com um interregno na década de 90, Mário Dias, distingue dois grandes vectores de diferenciação da APPACDM que dirige: a qualidade das instalações, sem quaisquer barreiras arquitectónicas e o rigor de gestão, aliados ao profissionalismo. O processo de qualificação iniciado em Março de 2006, que pretende certificar a instituição em termos de qualidade dos serviços prestados, é outra das bandeiras defendida por Mário Dias, que não tem problema em afirmar que “esta instituição pretende ser uma IPSS de excelência no concelho e de referência em Portugal”.

“Para chegar a este objectivo é necessário operar uma autêntica mudança de método de trabalho e de mentalidades aqui (APPACDM) dentro”, explica o presidente. A gestão da instituição é feita de forma empresarial o que permite, segundo o presidente, “manter uma saúde financeira e excluir aquela ideia do coitadinho, que infelizmente ainda vigora em muitas instituições de solidariedade”. Todos temos dificuldades financeiras, mas tenho que saber gerir os meus meios para conseguir chegar aos objectivos a que nos propomos”, diz. A criação de uma residência autónoma, já com projecto elaborado faz parte dos projectos futuros da APPACDM. O mesmo projecto foi submetido ao Programa de Alargamento da Rede de Equipamentos Sociais (PARES), promovido pelo Governo, mas não viu a sua candidatura aprovada. Mário Dias espera que no âmbito do QREN seja aberto um programa que permita o enquadramento da Residência. O apoio domiciliário é outra das metas que a instituição gostava de atingir, mas “é preciso inventariar as necessidades nessa área e talvez num prazo de 5 anos seja possível implementar essa valência”, afirma o presidente.

Uma realidade estatística

É um problema que afecta uma em quatro famílias. Em toda a União Europeia são cerca de 50 milhões, ou seja, 10% da população. Seria de esperar que fossem um lóbi poderoso, mas estão longe disso. Os factos não são novos. As pessoas com deficiência têm índices de desemprego duas vezes mais elevados do que os outros trabalhadores. A probabilidade de um jovem com algum tipo de deficiência não concluir o 3.º Ciclo escolar é o dobro da de outro aluno, para não falar das dificuldades diárias - por vezes, completamente inultrapassáveis - para desempenhar tarefas tão fundamentais como andar de transportes públicos ou fazer compras.

Segundo dados do Eurostat, em 2003 a taxa de ocupação de pessoas com deficiência severa era superior à média europeia - 52,9%, contra 24,3% de média na EU, uma subida relativamente aos dados de 1997, que apontavam para 22% de taxa de ocupação. No entanto, nos portadores de deficiência moderada, a taxa desce para 30,7%, contra 46% na União Europeia. Um estudo da Comissão Europeia, em 2001 dizia que a maioria dos europeus tinha problemas em lidar com a deficiência, quer própria, quer alheia: “A quase totalidade dos europeus defende que os Estados deveriam investir mais recursos na remoção de barreiras arquitectónicas e implementar mais acções de sensibilização para a integração social das pessoas com deficiência, considerando que muitas vezes estas pessoas são excluídas da sociedade por falta de oportunidades ao nível do ensino e do emprego, conduzindo a situações de pobreza e exclusão social.”

A existência de informação estatística global e actualizada sobre a população com deficiência residente em Portugal constituiu, até meados da década de 90, uma das fragilidades com que as instituições se confrontavam para terem um conhecimento mais concreto e sustentado da realidade do país neste domínio. Os Censos 2001 permitiram, em parte, construir um retrato do universo dessa população, incluindo também variáveis como o tipo de deficiência, grau de incapacidade atribuído pelas autoridades de saúde competentes para o efeito, o sexo, a idade, habilitações académicas, o local de residência, a situação face ao emprego, etc. A análise dos resultados dos Censos 2001 não permite, contudo, ter uma perspectiva de evolução da população com deficiência em Portugal, em virtude de não haver resultados censitários exaustivos desde 1960. O Instituto Nacional de Estatística (INE) contou 634 498 pessoas com deficiência recenseadas em Portugal, em 2001. Este valor representa 6,1% da população total do país.


Bilhete de Identidade

• Valências:
Intervenção Precoce e Integração em Jardim-de-infância (0 – 5 anos)
Sócio-Educativo (6 – 18 anos)
Centros de Actividades Ocupacionais (maiores de 18 anos)
Formação Profissional (maiores de 15 anos)
Lar Residencial (sem limite de idade, mas preferencialmente adultos)

• Apoiadas por:
Serviços Técnicos
Serviços Administrativos, Financeiros e Pessoal
Serviços de Manutenção e Serviços Gerais (transportes, limpeza, cozinha, etc.)

• Clientes* (utentes): 230
• Colaboradores: 97

* A designação de clientes é a nomenclatura adoptada pela instituição para o termo generalizado de utentes

 

Data de introdução: 2008-05-08



















editorial

O TRIÂNGULO DA COOPERAÇÃO

A consciência social, aliada ao dever ético da solidariedade, representa uma instância suprema de cidadania, um compromisso inalienável para com os mais vulneráveis e em situação de marginalidade, exclusão e pobreza.

Não há inqueritos válidos.

opinião

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