OPINIÃO

Um elogio surpreendente

Há poucos dias, um conhecido jornal francês publicou um texto cujo título era claramente apelativo, senão mesmo provocatório. “Porque é que, na Alemanha, os sem abrigo não morrem de frio?”- perguntava o autor desse texto. A pergunta tinha uma justificação particular: é que a morte dos chamados sem abrigo, por causa do frio, ocorre com demasiada frequência em França, sobretudo quando os números se comparam com as estatísticas referentes à Alemanha.

No primeiro noticiário da madrugada do dia 1 de Fevereiro de 1954, um homem que começava a ser famoso, conhecido como Abé Pierre, gritava aos microfones da RTL: “ esta noite, num passeio da avenida de Sebastopol, morreu enregelada uma mulher”. Este grito despoletou um imparável movimento de consciência social de que os “Emaús” foram os grandes pioneiros e intérpretes. Aquele padre francês, que se tornou num espécie de cidadão universal, morreu há quase três anos, 22 de Janeiro de 2007, mas o eco do seu grito de 1954, continua a ouvir-se um pouco por toda a parte, incluindo a França.

Tentando responder à pergunta “porque é que, em França, morre mais gente, de frio, do que na Alemanha,” o referido jornal, Le Figaro” aponta uma razão que, noutros países, em Portugal por exemplo, muitos terão dificuldade em aceitar, e que é a existência de um imposto que os cidadãos alemães pagam para as igrejas a que dizem pertencer, e que é cerca de 8% do seu rendimento. Trata-se de um imposto previsto na Concordata e que obriga as grandes igrejas, a católica e a evangélica, que dele beneficiam, a aplicar uma parte significativa desta contribuição em actividades ou intervenções de interesse geral. Problemas sociais, como é o caso dos sem abrigo enquadram-se perfeitamente no âmbito dessa contrapartida.

Na Igreja Católica alemã, a Caritas é a instituição que assume mais activamente o dever da solidariedade para com os sem abrigo, e assume-o de um modo suficientemente eficaz, para motivar o elogio e a admiração do autor do texto. Para além dos seus muitos voluntários, são seiscentos mil os assalariados a tempo inteiro, ao serviço das grandes iniciativas daquela instituição. Se, na Alemanha, o número de mortos entre os sem abrigo, vítimas do frio, é bastante menor que em França, escreveu um jornalista francês que isso se deve a um imposto que, acrescentamos nós, os latinos têm muita dificuldade em aceitar.
Nos tempos que correm, o elogio público de um jornalista a um imposto que reverte a favor de uma Igreja não deixa de ser surpreendente, mesmo que os seus beneficiários sejam os sem abrigo…

António José Silva

 

Data de introdução: 2010-01-17



















editorial

Autonomia das IPSS

Um provedor para zelar pela autonomia de todas as IPSS só seria admissível se fosse escolhido pelo conjunto de todas as IPSS, de todas as suas origens, de todas as afinidades e de todas as Entidades Representativas. 

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Estado e Sociedade - complementaridade e cooperação
As relações entre o Estado e as diferentes Organizações da sociedade civil têm sido alvo de muitos debates, mas permanecem em muitas mentes algumas...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

Creche gratuita: o compromisso cumpre-se com vagas
A gratuitidade das creches é um compromisso político forte com as famílias e, para muitas delas, uma esperança concreta. Mas só é real quando se traduz numa vaga...