A NOSSA ÂNCORA, SINTRA

Como ultrapassar a «dor maior»

Não há cura para o luto de uma mãe ou de um pai que perde um filho, mas pode haver terapias que ajudem a suportar a dor. É nesta premissa que se baseia o trabalho da associação “A Nossa Âncora”, uma IPSS que ajuda os pais a viverem e a ultrapassarem o luto. A instituição nasceu do encontro entre duas mães em luto que perceberam que a resposta para enfrentar a dor que sentiam podia estar, simplesmente, no acto de a dividir com alguém. Na altura, uma dessas mães, Emília Pires, em colaboração com o responsável pela saúde mental do concelho de Sintra, João Sennfelt, e após algumas idas ao estrangeiro para observar o trabalho de associações semelhantes, fundaram “A Nossa Âncora”, instituída como IPSS em 1996.

“O nome foi escolhido com o propósito de facultar aos pais que perderam filhos algo a que se “agarrar para poderem sobreviver”, explica Emília Agostinho, a actual presidente. O trabalho desenvolvido tem por base grupos de entreajuda, constituídos por pais que procura receber e acompanhar aqueles que vivem o mesmo drama, através da troca de experiências. “A melhor forma de ajudar é partilhar a dor com outros pais que passaram pela mesma situação”. No fundo, é terem exemplos de que é possível continuar em frente: “olharem para pessoas com luto mais adiantado e verem que é possível retornar à vida”.

Essa vida será sempre “totalmente diferente” da anterior porque a dor causada pela morte de um filho nunca se esquece nem nunca se ultrapassa, apenas se torna “mais suave, mais doce e nós aprendemos a viver com ela”, explica Emília Agostinho, também ela uma mãe em luto. Perdeu um filho há mais de 20 anos e, desde então, não passa um só dia sem que se lembre dele. “É uma luta diária, um passinho de cada vez. Às vezes, dão-se dois passos e, depois, recua-se”.

O caminho a percorrer é longo e penoso. Um pai não devia enterrar o filho, é uma frase comum nos grupos de entreajuda que se reúnem uma vez por mês em diferentes pontos do país. São pais e mães que se reúnem em círculo e falam, riem e choram, durante mais de duas horas. Ali podem recordar o filho que partiu, contar porque deixaram a cama feita durante um ano ou como escrevem sem se cansar sobre a sua morte. Nada é recriminado, afinal todos já passaram pelo mesmo. “O nosso principal objectivo é acompanhar os pais, ajudando-os a entender a sua imensa dor, para que não se fechem em si mesmos, envoltos em tristeza, revolta ou descrença e consigam encontrar novos estímulos para as suas vidas”, explica ao Solidariedade a presidente.

Emília Agostinho é também moderadora no grupo de entreajuda de Sintra, onde está localizada a sede da associação. Enquanto moderadora vai gerindo o tempo e as emoções dos pais que vêem estes encontros como “um balão de oxigénio” para passar o resto do mês, até à próxima reunião.
Actualmente, a associação apoia mais de meio milhar de casais que perderam os filhos nos 17 pólos espalhados pelo país. Vai vivendo das quotas dos sócios e de algumas ajudas das autarquias e além das reuniões supervisionadas por um psicólogo e por uma mãe em luto, que já fez a sua “caminhada”, oferece ainda atendimento individual, ajuda telefónica e online.

Emília Agostinho garante que para quem viu o filho partir há meses, não há aceitação, há apenas a sensação de injustiça. “Estas reuniões, a par de terapia com psiquiatras ou psicólogos, são uma ajuda valiosa para fugir ao suicídio com que muitos médicos se deparam nestes casos de pais em luto, além de que ajudam a consciencializar os progenitores de que com esta caminhada, tudo vai mudando”.
Segundo a opinião de diversos psicólogos, incluindo José Rebelo, psicólogo especialista no luto, os grupo de partilha são grupos terapêuticos cujo trabalho pode ser tão ou mais importante do que aquele feito com um psicólogo. Nestes casos, o papel do psicólogo é não só coordenar, mas também tratar directamente os casos mais complicados. José Rebelo defende que na morte de uma criança, o luto observado é mais complexo e com tendência para o desenvolvimento de manifestações anormais. “A dor e o sofrimento são, regra geral, muito mais intensos do que no luto pela morte de uma pessoa adulta”, como se pode ler no livro da sua autoria “Desatar o nó do luto”.

O luto pode ser dividido em três fases: a anestesia, a desorganização pessoal e profissional e a recuperação. Na passagem para a terceira fase há “o ponto em que a pessoa bate no fundo” e começa a aceitar e a reorganizar-se, defende José Rebelo. E é neste último período que as pessoas se tornam “mais criativas e mais altruístas”. O fim do luto acontece quando os pais percebem que “o vínculo não depende da existência física”. Segundo o psicólogo, há “mortes mais complicadas” que tornam mais difícil o processo de luto, como, por exemplo, as mortes violentas, os suicídios e os acidentes. É difícil ultrapassar um luto e há mesmo pais que nunca saem do luto patológico. E há ainda casos de luto crónico, de que são exemplo os pais que “nunca desmancham o quarto ou que estão sempre no cemitério”.

Emília Agostinho diz que falta uma educação para a morte, bem visível na forma como se “esconde das crianças que um familiar morreu ou como o pessoal de enfermagem, bombeiros ou polícias dão a notícia aos familiares da morte de um ente”. A dirigente revela que a associação dá formação a estas profissões. “Esta foi a primeira instituição do género no país, pelo que temos muitas solicitações, por exemplo, para ir aos hospitais, principalmente, nos casos de mortes à nascença, em que os médicos e enfermeiros não sabem como dar a notícia aos pais”.

“O número crescente de jovens que anualmente perdem a vida em Portugal - cerca de cinco mil dos 0 aos 30 anos -, deixa famílias destroçadas (...). É preciso que os pais sintam que não sofrem sozinhos, que não são esquecidos, nem diferentes dos outros”, diz um dos livros publicados pela associação. Mas há casos extremos de mães que preferem não encarar a realidade. “Embora a duração do luto seja muito variável, existem casos de mães que assumem peremptoriamente que não o querem fazer e até aquelas que negam a realidade e, para esses casos, é necessário um acompanhamento médico especializado”, diz a responsável.
A instituição não tem qualquer inspiração religiosa, o que permite prestar apoio a um leque muito diversificado de pessoas. “Chegam-nos pais de todas as classes e das mais variadas profissões, assim como pessoas de diferentes religiões”. “Tenho vários pais que são agnósticos e até ateus, mas para esses é complicado, porque a morte significa realmente o fim. Gerir a dor sem acreditar em nada, é mais difícil”, explica Emília Agostinho.

A sede da associação funciona em instalações cedidas pela Câmara Municipal de Sintra e a falta de dinheiro já levou a que suspendesse a actividades durante alguns meses. “A Nossa Âncora tem sido uma ajuda preciosa para aqueles pais que, perante a morte de um filho, perdem o norte e a coragem de segurar o leme para chegar a bom porto”, garante a presidente. No entanto, o trabalho não se fica por aqui. Emília Agostinho sublinha a necessidade de sensibilizar a sociedade para lidar com esta problemática, porque “ainda é um tabu falar sobre a morte, que é aquilo que de mais certo temos na vida”. É necessária formação sobre este tema dirigida aos profissionais de saúde, que lidam diariamente com a morte e a quem cabe, muitas vezes, a tarefa ingrata de informar os pais de que acabaram de perder um filho. As escolas também podem ser um território de acção porque, explica Emília Agostinho, “há professores que me ligam, completamente à nora, quando uma criança morre e, na sala de aula, fica uma carteira vazia”. Naturalmente, “os professores não sabem lidar com a situação, nem o que dizer” aos outros alunos.

Quanto aos pais, esta será sempre uma adversidade para qual nunca estarão preparados. Segundo Emília Agostinho “os filhos podem-se formar, podem ser bem sucedidos ou não, mas o que nós não estamos à espera, nunca, é que eles possam morrer antes de nós”. Por isso, o trabalho da instituição é fazer os possíveis para que os pais que se vêm confrontados com este drama se mantenham à tona. “Com o tempo não dói tanto”, garante quem já por passou por um luto recente: a meta é a serenidade.


Texto: Milene Câmara

 

Data de introdução: 2010-09-08



















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