OPINIÃO

A Líbia e o Iraque

Não obstante as especificidades de cada caso, não é possível olhar para o que se passa hoje na Líbia, sem lembrar o processo que levou à intervenção americana no Iraque. Apesar de algumas diferenças notórias, as semelhanças entre as duas situações são muitas e visíveis.

A primeira é que se trata de dois países árabes, muçulmanos e produtores de petróleo, embora no caso do Iraque a comunidade islâmica se divida entre sunitas e xiitas, o que não acontece, pelo menos de modo tão acentuado, na Líbia. A segunda é que, em ambos os países, o poder político foi exercido ditatorialmente durante muitos anos: no Iraque, por Sadam Hussein e na Líbia, pelo coronel Kadafi. Ambos chegaram ao poder através de revoluções e estas deram origem a regimes despóticos e ditatoriais que, aparentemente, tiveram a sua expressão mais visível e cruel no Iraque.

Ambos foram ditadores tão desumanos como exibicionistas. Criaram e promoveram uma corte de fiéis indefectíveis e, para maior segurança, entregaram aos seus filhos cargos da mais alta responsabilidade. Sadam já pagou e de forma verdadeiramente humilhante, os seus desvarios ditatoriais, enquanto Kadafi utiliza todos os recursos de que ainda dispõe para prolongar o poder, o mais tempo possível, embora, como tudo indica, venha a falhar neste seu propósito.

Com as suas provocações Sadam levou os Estados Unidos a uma intervenção unilateral e desastrosa que fez centenas de milhares de vítimas e teve efeitos catastróficos no prestígio norte-americano. É verdade que o ditador iraquiano não venceu a “mãe de todas as guerras” como ameaçava, mas conseguiu abalar, por muito tempo, a posição absolutamente cimeira que Washington vinha detendo no mundo, há muitos anos.
Foi tal o impacto negativo da invasão norte americana de 2003, que pouca gente acreditaria que as potências ocidentais acabariam por aceitar a ideia de que a solução para a crise humana e política da Líbia pudesse ser uma intervenção militar. E, no entanto, foi esta a opção tomada, agora com o apoio surpreendente da ONU. Ao contrário do que aconteceu em 2003, as reservas de alguns dos membros do Conselho de Segurança não se transformaram em veto. Até a França, que nesse ano tanto criticou os Estados Unidos, aparece agora como grande defensora da utilização da força.

Os argumentos justificativos da intervenção militar são, quase todos, de carácter humanitário. Que era urgente proteger o povo líbio da ameaça de carnificina que estaria a ser levada a cabo pelas forças militares de Kadhafi, argumentaram os defensores desta solução. No entanto, em 2003, já ninguém tinha dúvidas acerca das carnificinas de que tinha sido vítima grande parte da população iraquiana, nomeadamente a população curda…
Resta agora esperar pelo fim dos bombardeamentos da Líbia e ver o que acontece a seguir….

António José Silva

 

Data de introdução: 2011-04-09



















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