BERÇÁRIO

Espaço de afectividade e estimulação

“O berçário é o nosso canteiro florido, porque estamos a falar da primeira infância, do desabrochar de flores, do espaço do afecto, do mimo e dos cuidados redobrados”, começa por referir Manuel Araújo, presidente da Engenho, instituição do concelho de Vila Nova de Famalicão, distrito de Braga.
Para este dirigente, o berçário, resposta social para crianças entre os 4 meses e o momento da aquisição da marcha (passando de seguida para a sala de um ano), é muito importante, daí ter uma equipa técnica supervisionada por uma educadora e ainda duas assistentes de acção educativa, prática extensível à esmagadora maioria das IPSS.
“Todas as acções e projectos dirigidos às crianças são de acordo com os parâmetros e as boas práticas da psicologia da primeira infância, que obedecem a um plano educativo”, defende, sublinhando: “Este é o espaço dos afectos, das emoções, das reacções, da coordenação motora, das reacções dos sentidos e dos reflexos”.
Para Lúcia Góis, directora-técnica da APAC, “o afecto é o ingrediente principal e, desde o berçário até aos dois anos, é o mais importante”.
No entender desta educadora de infância de formação, “para além das necessidades básicas, que são a alimentação e a higiene, no berçário fazem-se muitas actividades de estimulação”, indicando um projecto que a instituição está a desenvolver no corrente ano, denominado «A ler e a brincar aprendemos a crescer», “que é a leitura de livros para os bebés, essencialmente com imagens e com sons, porque o tipo de actividades que realizamos no berçário é essencialmente sensorial”.
Trabalhar a parte sensorial é de facto uma prioridade, onde os estímulos e os afectos ganham uma dimensão maior.
“No berçário importa não só os estímulos, como também os afectos, porque tem que haver sempre uma pessoa referência, daí haver sempre uma das auxiliares que continua com o grupo, para que na transição para outra sala não seja tudo diferente, seja o espaço, os adultos e até alguns dos colegas de sala”, defende Anabela Pereira, coordenadora pedagógica da Engenho, que destaca “o brincar com intenção e não apenas o brincar para entreter”.
Lúcia Góis acrescenta que “o afecto é fundamental, tal como valorizar-se as crianças como seres únicos com tempos de aprendizagem diferentes, porque, apesar de serem da mesma faixa etária, o seu desenvolvimento não é uniforme”.
Outro aspecto muito importante é o das rotinas. “É muito importante, e os pais atribuem muita importância à questão das rotinas, como a alimentação e o sono. Eles vão criando laços muito fortes com as auxiliares, o que é muito importante, pois eles sentem mais segurança”, acrescenta Anabela Pereira.
“Um berçário, ou qualquer outra resposta social, não pode de forma alguma ser um parque de estacionamento. Um berçário é um espaço em que a criança pode e deve usufruir de condições de comodidade, de conforto, de interacção, de jogo de emoções, de reacções, de sentimentos, mas, ao mesmo tempo, onde a criança deve começar a ganhar rotinas, seja na entrada, na higiene, no brincar, na refeição, no descanso”, reforça Manuel Araújo.
Os estímulos, os afectos e as rotinas em seres que estão a desabrochar para a vida são fundamentais, daí que aquele mito de que um berçário, devido à tenra idade dos bebés, poderá ser simplesmente um local de depósito dos mesmos, onde o essencial é cobrir as necessidades básicas como a alimentação, a higiene e o sono está a desaparecer.
“Os pais já não têm essa ideia, porque quando vêm cá sublinham sempre as boas referências da instituição e até porque também procuram qualidade para o desenvolvimento dos seus filhos”, argumenta Anabela Pereira, da Engenho, acrescentando: “Pelas relações afectivas que criamos entre a creche e a família, os pais apercebem-se que o berçário não é um depósito, mas um local onde os filhos são estimulados. Os pais referem que se apercebem da evolução dos filhos, porque no pouco tempo que passam com eles devido ao trabalho, sentem que aqui os filhos recebem esses estímulos”.
Esta é uma opinião partilhada por Lúcia Góis, da APAC, que considera que “os pais percebem que há um trabalho e que a creche não se trata apenas dos cuidados básicos e que se desenvolvem muitas actividades e os pais percebem que há uma evolução das crianças e manifestam esse entendimento”.
Refira-se que a APAC – Associação Popular de Apoio à Criança, instituição que cobre uma área urbana, acolhe no total 750 crianças, sendo que 170 crianças estão em creche – 72 na sede; 28 em creche familiar; e 80 neste edifício da Quinta da Piedade. Em termos de berçário, nos três que promove, acolhe 30 crianças e ainda mais 5 bebés em amas.
Por seu lado, a Engenho – Associação de Desenvolvimento Local do Vale do Este, uma região essencialmente rural do concelho de Vila Nova de Famalicão, nas suas duas creches alberga 49 crianças, sendo 15 em berçário.

RESPOSTAS AINDA INSUFICIENTES

Apesar da taxa de natalidade estar a decrescer ano após ano, a verdade é que a oferta de respostas sociais a nível da primeira infância, leia-se creche, ainda não é a suficiente, pelo que muitas instituições ainda apresentam listas de espera significativas. No entanto, a situação tem vindo a mudar, com a criação de diversos equipamentos e uma aposta forte das IPSS na resposta a uma necessidade fundamental da sociedade e que é o acompanhamento precoce dos mais novos.
Na viragem do milénio, segundo dados da Carta Social, havia 1.619 creches com capacidade para 57.399 utentes, num ano em que a população dos 0 aos 4 anos era de 549.825 crianças, um número que revelava uma tendência ainda crescente e que continuou até 2005.
Neste ano, existiam 1.930 creches, com capacidade para 72.429 utentes, altura em que a população entre os 0 e os 4 anos atingiu o seu pico mais alto no século XXI, com 554.687 crianças.
Refira-se que em 1971 estavam recenseados 783.328 crianças (dos 0 aos 4 anos), número que foi oscilando e alcançou o seu pico em 1977, com 867.145 petizes, mas que após mais algumas oscilações, entrou em decréscimo sistemático desde 2005.
Ainda segundo a Carta Social, no ano de 2010 havia por todo o País 2.421 creches, com capacidade para 95.920 crianças, quando o total de população dos 0 aos 4 anos era já de apenas 506.483 infantes, sendo a cobertura nacional de 35,1%.
Já em 2012, havia 2.573 creches, com capacidade para 108.301 utentes (para um total de 485.457 crianças entre os 0 e os 4 anos de idade), notando-se, também, para além do aumento do número de equipamentos, o reflexo da introdução de algumas alterações legislativas que permitiram às instituições receber mais crianças nos espaços existentes.
“Efectivamente, a creche é uma valência que nos últimos anos tem sido alvo de uma maior atenção e apareceram mais respostas”, refere José Casaleiro, presidente da APAC – Associação Popular de Apoio à Criança, da Póvoa de Santa Íria, concelho de Vila Franca de Xira, acrescentando: “Apesar de tudo, ainda há insuficiência e as estatísticas assim o demonstram”.
José casaleiro recorda a importância do Programa PARES e não só no crescimento da capacidade instalada das instituições dedicadas à infância: “Em relação à creche tem havido um esforço global, já desde o Governo Sócrates, nomeadamente através do programa PARES... Por exemplo, este novo equipamento da APAC foi construído com o apoio do PARES e agora temos aqui mais 80 crianças do escalão etário da creche. Mas também a legislação de 2011 deu uma ajuda, porque permitiu que nos mesmos espaços, e com algum ajustamento de pessoal, pudéssemos ter mais crianças”.
No entanto, o futuro começa a preocupar os dirigentes das instituições, especialmente daquelas que se dedicam exclusivamente à infância.
“Ainda há insuficiência, mas as instituições só de crianças têm que ter cuidado e diversificar as suas respostas, porque dentro de alguns anos vai ser complicado. Não tanto na creche, mas nas demais respostas”, alerta José Casaleiro, há 31 anos ligado à APAC, na qual ainda assim, de momento, há uma vasta lista de espera.
O grande problema é a inversão da pirâmide etária, com o forte envelhecimento da população e a diminuição constante e gradual da taxa de natalidade.
Também Manuel Araújo, presidente da Engenho, uma instituição cuja área de intervenção é numa região rural e de forte envelhecimento populacional, alerta para os perigos do futuro.
“Neste momento a nossa resposta está ajustada às necessidades das comunidades locais, agora o que se está a assistir é transversal a todo o País e é um problema estrutural. Por isso impõe-se que sejam implementadas políticas activas de apoio à família e de incentivo à natalidade”, sustenta, exemplificando com a situação do concelho de Vila Nova de Famalicão, que é “um município ao qual se associa um crescimento de residentes e ainda com dinâmicas de crescimento da população”.
“As projecções demográficas para 20 anos no município de Vila Nova de Famalicão não são risonhas”, remata, preocupado.
Segundo a última nota informativa da Carta Social, a cobertura de respostas sociais para a primeira infância (creche e ama), ao nível concelhio em Portugal Continental, evidencia uma distribuição equitativa de norte a sul do País. Em 2012, a taxa de cobertura média no Continente situou-se nos 41,8 %, valor que se deve a um incremento de 5,4 % da capacidade instalada no período 2011-2012, representando cerca 6.200 novos lugares em creche e ama, mas também à diminuição do grupo populacional dos 0-3 anos nos últimos anos.


PROJECTO EDUCATIVO É FUNDAMENTAL

“Não há uma correlação directa que demonstre os efeitos que a frequência de um berçário pode trazer para a vida adulta, mas é evidente que a aquisição de algumas competências mais tarde se revelam de mais difícil aquisição por parte de crianças que terão sido privadas desse tipo de estimulação, como, por exemplo, a estimulação da motricidade e da locomoção”, começa por referir Carla Capela, psicóloga do Centro Social Padre Manuel Joaquim de Sousa, freguesia de Caldas das Taipas, concelho de Guimarães.
Para esta técnica, cada caso é um caso e depende ainda muito “do tipo de rectaguarda que as crianças possuem e do potencial inato de cada uma delas”, pois “podem não frequentar uma creche, mas estarem rodeadas de adultos significativos que as estimulam devidamente”.
Sobre a real importância da frequência do berçário, a psicóloga reconhece a resistência que alguns pais ainda têm: “Os pais não têm obrigação de saber a importância de uma creche ou de um pré-escolar, cabendo aos profissionais da área divulgar essas noções, desmistificar certos conceitos e valorizar o nosso trabalho. Depois, porque a própria Segurança Social, a partir do momento em que não considera obrigatória a presença de uma educadora num berçário, acaba por assumir que não é necessário um trabalho pedagógico nestas idades”.
Para a técnica, este “é um dilema” para o qual “não há respostas”, mas “apenas argumentos para defender posições”.
Carla Capela defende “o grande relevo do projeto educativo” levado a efeito nas instituições em geral, e na das Taipas em particular, em paralelo com o trabalho que “cabe a cada pai desenvolver com os seus filhos”.
Para a psicóloga, “o berçário é um importante local de trabalho ao nível da socialização”: “Os bebés nascem com um vínculo materno inquestionável e necessitam, a determinada altura, de desenvolver um estilo de vinculação segura na medida em que só assim poderão, um dia mais tarde, atingir bons níveis de relacionamento interpessoal, nomeadamente com grupos de pares e com a pessoa com quem venham a desenvolver uma relação de intimidade. Ou seja, têm sido estudadas as repercussões das relações significativas da infância na vida adulta e os resultados apontam para que se não são fortemente estimuladas e mediadas por profissionais dotados, há um menor controlo sobre o futuro emocional dessas crianças”.
Para esta especialista em infância, “devem fomentar-se competências parentais ao invés de suprir as lacunas dos pais com que as instituições lidam”, ou seja: “Há, também ao nível dos cuidadores, um trabalho importante que pode e deve desenvolver-se num berçário, porque se temos educadoras que possuem conhecimentos aprofundados sobre a infância, há que passá-los para os pais que recorrem a nós, com sede de perceberem como podem assumir com qualidade essa função que a vida lhes proporcionou”.

 

Data de introdução: 2013-12-20



















editorial

SUSTENTABILIDADE

Quando o XXIV Governo Constitucional dá os primeiros passos, o Sector Social Solidário, que coopera com o Estado, deve retomar alguns dossiers. Um deles e que, certamente, se destaca, é o das condições de sustentabilidade que constituem o...

Não há inqueritos válidos.

opinião

EUGÉNIO FONSECA

Agenda 2030 e as IPSS
Em Portugal é incomensurável a ação que as cerca de 5 mil Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) existentes, têm vindo a realizar.  As...

opinião

PAULO PEDROSO, SOCIÓLOGO, EX-MINISTRO DO TRABALHO E SOLIDARIEDADE

A gratuitidade das creches entre o reforço do setor social e a privatização liberal
 A gratuitidade das creches do sistema de cooperação e das amas do Instituto de Segurança Social, assumida pela Lei Nº 2/2022, de 3 de janeiro, abriu um capítulo novo...