A BENEFICENTE, PÓVOA DE VARZIM

Há 108 anos a dar banho, comida e roupa lavada

No primeiro dia do mês de Janeiro do ano de 1906, portanto há 108 anos, era fundada A Beneficente, por um grupo de poveiros denominado «Companheiros do Bem», que já realizava alguma caridade junto dos “mais pobres e necessitados”.
Era essencialmente um trabalho que visava reconfortar o estômago dos que nada tinham e que, anos mais tarde, no seguimento da acção social que a, então, Associação de Caridade desenvolvia daria origem à Sopa dos Pobres, corria o ano de 1950.
“Era um acolhimento alimentar aos mendigos, ou seja, não passavam fome. Essa é uma filosofia que vem desde sempre com a instituição, A Beneficente dá de comer a qualquer pessoa que não tenho meios de poder arranjar uma refeição digna”, explica Rui Quintas, presidente d’A Beneficente, a propósito de, actualmente, servir 125 refeições no âmbito do programa das Cantinas Sociais.
“A filosofia da Cantina Social é um pouco diferente e damos outro tipo de apoio. Aí acorrem pessoas que, dadas as contingências da sociedade e a crise que se tem vivido, apesar de terem alguns rendimentos, estes são insuficientes. Sempre é uma poupança que essas famílias conseguem. Hoje há gente que não se pode classificar como pobre, mas dada a crise não tem rendimentos suficientes e tem dificuldades económicas”, acrescenta Rui Quintas, esclarecendo: “A Câmara ainda nos dá um apoio para podermos manter a Sopa dos Pobres, a que hoje chamamos Refeitório Social, e estamos com a porta aberta para dar refeição a qualquer pessoa que necessite. Os mendigos não precisam de andar a pedir por aí para a comer”.
Esta antiga valência é ainda acompanhado por uma outra, também bem antiga e que, nos dias de hoje, não é tão usual, para mais numa cidade que não é um grande centro urbano. Trata-se do Balneário Social, a que recorrem uma média de 10 pessoas por dia e onde se presta ainda serviço de lavandaria.
Pel’A Beneficente passam diariamente cerca de 650 pessoas, entre crianças e idosos, a que se junta um quadro de pessoal de 130 elementos.
“Gerir uma casa destas já não é fácil, é preciso um quadro de pessoal bastante bom, dentro de todas estas áreas, social e educacional, e tentar no dia-a-dia resolver os problemas que vão surgindo”, sustenta o presidente, que sucedeu ao pai António Quintas aos destinos da instituição, acrescentando: “Não é uma tarefa fácil, especialmente nestes dias difíceis a nível social, pois temos tido mais pedidos, o que implica um maior esforço e uma ainda maior dedicação das pessoas. Aqui ajuda esta ser uma casa com uma tradição muito longa, em que o quadro de pessoal também não é novo nestas andanças, é um pessoal conhecedor. E há alguma disciplina e organização implementada, que tem vindo a ser aperfeiçoada ao longo dos anos, o que também ajuda nesta tarefa da gestão e controlo de toda esta gente que passa por aqui diariamente”.
E, aqui, Rui Quintas não deixa de sublinhar o papel dos colaboradores: “Acima de tudo, pois é o elemento mais importante, o elemento humano, os nossos colaboradores. Sem eles nunca conseguiríamos prestar o serviço que prestamos. Não fosse a forma como a equipa de pessoal está preparada, unida e dedicada a esta causa e a este tipo de actividade e isto não seria possível”.

DOIS EDIFÍCIOS

Pelos dois edifícios da instituição estão espalhadas as diversas valências… No edifício-sede funciona o Centro de Dia (42 utentes), a Cantina Social (125 refeições/dia) e o Serviço de Apoio Domiciliário (77 utentes), para além do Refeitório Social e o Balneário. Mas há mais, como revela a directora de serviços, Rosália Silva: “Também vestimos as pessoas. Temos aqui uma espaço chamado o Cantinho Social, onde recebemos ofertas de roupa que depois damos às pessoas necessitadas”.
Em Centro de Dia e SAD, a técnica confirma a existência de listas de espera, “sendo que a Cantina Social está sempre completa”.
No principal equipamento da instituição funciona ainda o Jardim-de-infância Santo António, com creche e pré-escolar, valências igualmente disponíveis no Jardim-de-infância Monsenhor Pires Quesado, onde funciona ainda um ATL.
No conjunto, na área educacional, A Beneficente acolhe 95 bebés em creche, 245 em pré-escolar e ainda 55 em ATL.
“Hoje, A Beneficente abrange todo o tipo de população, a clientela que aqui vem procura a qualidade dos serviços. A Beneficente não pode é fechar a porta aos mais carenciados e, por isso, terá que lhes criar as mesmas condições que às pessoas que podem pagar. Isto aplica-se na área educacional e na área social”, refere Rui Quintas, sublinhando: “A aposta destes anos todos foi sempre prestar um bom serviço, independentemente da condição social de quem nos procura”.
E, com a crise, tem havido aumento de procura: “Bastante… Notamos muito nas mensalidades, uma vez que hoje as pessoas têm muito menos poder de compra, fruto da carga fiscal e também do desemprego, da emigração… Nota-se que a crise bateu à porta das pessoas e de uma forma generalizada. E até temos baixado as comparticipações porque as pessoas ganham menos, o que provam com a declaração de IRS”.
Mesmo assim, a instituição da Póvoa de Varzim consegue manter uma situação financeira equilibrada.
“Não podemos dizer que está bem, mas também não podemos dizer que está mal”, atira de pronto o presidente da instituição, pormenorizando: “Temos trabalhado para conseguirmos passar esta fase crítica com alguma tranquilidade, sem grandes mexidas no quadro de pessoal… Temos tentado manter a parte financeira equilibrada, com apostas num controlo mais apertado na gestão de desperdícios e nas compras, ou seja, há um maior rigor que não havia fora deste período de crise”.
Apesar de uma gestão mais criteriosa, há sempre algumas flutuações. “É óbvio que sentimos dificuldades no dia-a-dia a nível de tesouraria, mas conseguimos ir superando as situações. Porém, comparativamente ao que temos visto por aí, não nos podemos queixar. Temos conseguido equilibrar este barco e levá-lo em bom porto. As coisas estão mais ou menos equilibradas”.

NOVOS PROJECTOS

Os tempos difíceis que se vivem não são propícios a novos projectos, até porque ainda há dívidas a saldar de investimentos passados, mas “em mente há muitos”, assegura Rui Quintas, que adianta que, à excepção de “algumas situações pontuais, algumas rectificações e melhorias que são necessárias”, nada mais está em realização.
“Em mente temos alguns projectos, mas aguardamos que este momento mais complicado passe… A Beneficente tem algum património e gostaríamos de fazer uma outra creche e um lar de idosos e ainda concretizar uma aspiração muito antiga da instituição que é criação um Centro de Noite. Esta é uma ambição antiga para dar resposta a algumas pessoas que dormem na rua e que assim teriam um local para passar as noites. São esses os projectos que temos em mente, ou seja, o lar e a creche, num novo edifício onde iríamos também centralizar todos os serviços de apoio. Isto é algo que está sempre em aberto, até porque há os apoios do QREN aos quais estamos atentos, mas com as devidas cautelas, porque o Estado não comparticipa a 100%”, alerta o líder da instituição, que lembra: “Depois há sempre requalificações a fazer nos equipamentos já existentes a que é preciso dar atenção”.
Numa altura em que tanto se fala da baixa taxa de natalidade e até de alguma falta de procura dos equipamentos para a infância, a criação de mais uma creche por parte d’A Beneficente pode parecer utopia, mas, segundo os seus responsáveis, é uma necessidade no concelho.
“A zona sul da Póvoa de Varzim não está bem servida… Isto é um projecto que já tínhamos elaborado há uns anos, no tempo do Governo Sócrates, mas que suspendemos quando houve o boom de equipamentos. Hoje, sabemos que temos que redimensionar o projecto, porque também há que contar com a concorrência. No entanto, sabemos que há zonas, especialmente para o interior do concelho, que necessitam desta resposta, mas tem que ser algo bem pensado e bem dimensionado. Há zonas em que as pessoas ainda têm que andar bastantes quilómetros para deixar as crianças”, revela Rui Quintas, que se mostra esperançado quanto ao futuro: “Fruto um bocado da crise, há lugares por preencher nas creches, mas esta situação não vai durar para sempre. Isto há-de dar a volta e irá novamente haver carência de vagas. Nessa altura, quem já estiver com um pé à frente estará na primeira linha para poder dar o salto. Neste momento estamos semi-parados, mas estamos atentos, pois a crise há-de passar e as pessoas terão novamente capacidade para colocar os filhos nas creches. Hoje, quem está desempregado tem os filhos em casa, mas quando recuperar o emprego vai precisar de vaga para as crianças”.
Ajustar os serviços às necessidades da comunidade que servem é a grande preocupação dos dirigentes d’A Beneficente, que, acima de tudo, não querem prejudicar quem realmente precisa porque estão a apoiar quem não necessita e se aproveita.
“O maior obstáculo que notamos é em termos de gestão adequada em função do que são as necessidades, porque sabemos que, por vezes, há desperdícios e abusos e nem sempre se consegue estabelecer o equilíbrio. Depois, em relação às pessoas que nos procuram, termos a percepção correcta de que são as que realmente necessitam, pois sabemos de algumas pessoas que vêm aqui e vão a outras instituições, fazendo disso quase uma rotina. Ou seja, saber que quem vem aqui é quem realmente necessita é a grande preocupação, pois podemos estar a prejudicar quem realmente precisa. É que neste grande universo de pessoas que servimos diariamente, provavelmente há algumas que não necessitariam”.
A Beneficente é das mais antigas instituições sociais da Póvoa de Varzim, tem crescido muito nestes 108 anos de vida e é vontade de quem a dirige crescer ainda mais… mas com os pés assentes na terra.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2014-06-16



















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