HENRIQUE RODRIGUES

David e Golias

1 - Por estes dias, Cuba e os Estados Unidos vão reatar relações diplomáticas, ao cabo de mais de 50 anos de conflito.

Com efeito, nos finais da década de 50 do século passado, Fidel Castro, à frente de um exército popular e revolucionário, destituiu a ditadura de Fulgêncio Baptista, que então governava o país.

Essa ditadura servia os interesses das grandes multinacionais norte-americanas, que exploravam em seu proveito as riquezas naturais da ilha, contando com a cumplicidade e as alianças da clique dirigente do entorno de Fulgêncio Baptista.

Após a tomada de poder pelos guerrilheiros da Sierra Maestra, foram nacionalizados os interesses empresariais norte-americanos, o que levou a que o Governo dos Estados Unidos decretasse o embargo comercial a Cuba, embargo levado a cabo, quer pelos próprios Estados Unidos, quer pelos países seus aliados e amigos.

Esse embargo foi efectivo, privando de facto a população da Ilha de um normal abastecimento de bens essenciais, em muito ajudando a eficácia do embargo o facto de Cuba se situar a escassas centenas de milhas do território dos Estados Unidos, na Flórida: no próprio coração do império, para utilizar a semântica heróica que muito marcou a nossa cultura nas décadas de 60 e 70 do século XX.

Enquanto a União Soviética existiu como pátria do socialismo real e grande entreposto do internacionalismo, a experiência cubana constituiu um dos polos do conflito que, à escala mundial, atravessou toda a segunda metade do Século XX: a guerra fria, entre o bloco comandado pela União Soviética – o Pacto de Varsóvia - e aquele em que pontificavam os Estados Unidos – a Nato.

O que sabemos do que foi a vida no dia-a-dia da população, em Cuba, ao longo destas quase 6 décadas de castrismo, não entusiasma uma alma democrata: regime de partido único; inexistência de liberdade de associação, reunião e expressão; repressão da dissidência e da mera discordância; pobreza generalizada; eleições como tínhamos cá, antes do 25 de Abril – com os resultados fixados de antemão.

Não obstante este retrato, de todos conhecido, sempre houve, relativamente a Cuba, neste mesmo nosso Ocidente, uma espécie de tolerância e compreensão, a coberto de um vago perfume revolucionário romântico, à Che Guevara, que faziam ver com indulgência em Cuba ofensas aos direitos humanos que mereceriam - e mereceram - a mais generalizada repulsa quando verificados na Roménia de Ceausescu ou na Polónia de Gomulka.

A razão que explicava – e explica ainda – essa especial tolerância era justamente o facto de Cuba, e o seu “socialismo real”, se conseguir manter, durante tantos anos, como uma espinha cravada na garganta do império americano, sem transigir nos princípios nem se render à força do vizinho do Norte.

Quando, num conflito, vemos um fraco e pobre afrontar, só com uma fisga, um poderoso e rico, com todo o arsenal bélico ao seu dispor, o nosso coração e a nossa vontade pende sempre para o lado do primeiro – e só depois é que cuidamos de saber quem terá a razão.

Ou se algum a terá …

2 – Com a Grécia passa-se o mesmo.

À hora a que escrevo, não sei ainda o resultado do referendo.

Não sou grego, não sinto na pele as ameaças nem no peito o orgulho, não voto ao lado dos meus concidadãos europeus do outro extremo do Mediterrâneo.

Não sei nada de finanças públicas, nem me compenetro do discurso sábio dos que a esse aspecto da gestão pública reduzem as nossas opções e a nossa vida.

Não sei quem, por essas contas, terá ou não razão – sabendo bem, no entanto, que a simples contabilidade, numa folha de Exel (creio que é assim que se diz agora…) é muito curta para decidir uma questão central da construção europeia como projecto político de paz e de solidariedade.

Mas o impulso de alma, anarquista ou justiceiro, que silenciosamente nos sussurra que devemos estar do lado dos mais fracos, faz desejar, no íntimo de cada qual, que os gregos vençam esta luta contra um adversário muito mais forte.

Trata-se, ainda por cima, de uma questão entre duas legitimidades hierarquicamente diversas: o Governo de Tsipras foi eleito pelo povo grego; e a Comissão Europeia não só não foi eleita pelos povos da União, como não dispõe, desde há mais de 10 anos, de dirigentes com estatuto à altura da ambição do projecto europeu.

3 – Há ainda um outro aspecto que a provável demissão do Governo do Syriza, no contexto do novo resgate, implicará, e que me deixa alguma desilusão.

Temos tido, no nosso País, após a Revolução de Abril, no essencial, o rotativismo entre o centro-direita e o centro-esquerda, polarizados, os primeiros, no PSD, os segundos, no PS.

(Ou ao contrário… ninguém sabe bem…

Ainda me lembro de, no tempo de Governo do prof. Cavaco Silva, o PSD se reclamar da “esquerda moderna”.)

“Vivemos habitualmente”, como era a ambição de Salazar para a nossa vida política.

Sem entusiasmos nem ambições – e sem remorsos nem canseiras.

(Mal o velho ditador imaginava que também com eleições livres se pode “viver habitualmente”)

Temos, no entanto, como (fraco) consolo, a tranquilidade de saber que, pelo voto, ao fim do mandato, podemos mudar a tribo.

As regras formais da democracia liberal vão-se cumprindo sem reparos.

Na Europa é igual: tanto monta serem partidos conservadores, democratas-cristãos ou sociais-democratas a governar, nada os distingue.

As sucessivas transferências de soberania para a União Europeia, a que vimos assistindo, sem voto nem protesto, esvaziam cada vez mais a margem das diferenças possíveis entre forças políticas diversas.

A União Europeia decide tudo nas nossas vidas – e, do que ainda não decide, quer passar a decidir: desde o calibre dos tomates ao sistema público de pensões, do número de feijões em cada vagem ao défice orçamental, do tamanho dos carapaus aos salários no Estado.

Em breve a assinatura, desejada pelo Bloco Central, em Portugal e na Europa, do Tratado de Comércio Intercontinental porá a protecção social pública ao alcance dos fundos multinacionais americanos dos seguros ou da banca – como o Lehman Brothers.

Ora, desde que o Syriza ganhou as eleições, o conflito do Governo com as organizações credoras tem ocupado toda a agenda mediática.

Ainda não tivemos notícia do que é, em políticas internas concretas, o Syriza a governar os gregos.

Os partidos do bloco central, no essencial das liberdades públicas, não suscitam receios.

A posição dos partidos radicais, sejam da direita, sejam da esquerda, é normalmente mais marcada e nítida, do ponto de vista ideológico, do que o indiferentismo do centro político.

Essa maior nitidez ideológica anda muitas vezes associada – diz-nos a história – a uma maior rigidez a autoritarismo, quando no exercício do poder: cada ideologia tem uma explicação global para o mundo e quer fazê-la vingar, prescindindo com facilidade das liberdades individuais, quando estas conduzam os cidadãos para fora do “caminho justo”.

Gostava de ver, neste nosso mundo civilizado, cosmopolita e abúlico da Europa, como correria, para as pessoas concretas, um modelo verdadeiramente alternativo de governo, e se o radicalismo ideológico próprio da oposição política enfraqueceria e se afeiçoaria pragmaticamente às necessidades da vida prática.

Como no Brasil de Lula da Silva e de Dilma Roussef.

Mas os batalhões de Juncker e Lagarde não vão permitir essa experiência.

E uma só fisga não dá para tantos adversários.

Henrique Rodrigues – Presidente da Direcção do Centro Social de Ermesinde

 

Data de introdução: 2015-07-12



















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