HENRIQUE RODRIGUES

“Coligação negativa”

1 - Que me lembre, a primeira vez que ouvi falar de coligação negativa foi a José Sócrates, quando o Parlamento chumbou a proposta do PEC 4, que fora aprovada pelos nossos tutores da altura, em Bruxelas.
É bom recordar: depois do aumento de impostos, que os líderes do PS e do PSD de então, José Sócrates e Pedro Passos Coelho, concordaram aplicar aos portugueses – o que levou Passos Coelho a pedir desculpa, afirmando que seria a última vez -, numa espécie de pacto do bloco central de que volta agora a falar-se, embora com outros actores, o PSD, o CDS, o BE e o PCP juntaram os seus votos na Assembleia da República para chumbarem a proposta que o Governo negociara com a União Europeia, contendo um conjunto de medidas penalizadoras que agravariam as medidas de austeridade que vinham já sendo tomadas e que marcaram a vida portuguesa durante 4 anos.
José Sócrates foi logo de seguida falar com o então Presidente da República, Cavaco Silva, apresentar a demissão do Governo – a que se seguiram eleições, com a vitória de Pedro Passos Coelho, depois empossado como Primeiro-Ministro.
Creio que foi o mesmo José Sócrates quem falou em “coligação negativa”, para censurar a aliança entre a direita e a extrema-esquerda parlamentar, com vista ao afastamento do centro político, representado pelo PS, do exercício do poder.
O momento actual reproduz muitos dos tiques de então.
Também agora, a propósito da recuperação do tempo de serviço dos professores, e estando igualmente o PS no Governo, como então, as demais forças com representação parlamentar voltaram a juntar os seus votos para chumbar uma proposta do Governo.
(Tecnicamente, não é bem isso, tratando-se antes de chamada à ratificação parlamentar de um decreto-lei do Governo – mas em substância é o mesmo…)
E também para mimetizar o procedimento de há 8 anos, o Primeiro-Ministro foi falar com o actual Presidente da República, dando-lhe conta da sua intenção de se demitir de o chumbo fosse avante – e prevenindo o País dessa sua intenção.
No momento em que escrevo não se sabe ainda se a ameaça é para levar a cabo; ou se se trata apenas de um jogo de sombras.
O que se sabe é que de novo os responsáveis pelo PS vieram zurzir os partidos e dirigentes políticos envolvidos no chumbo parlamentar, designando a conjugação de votos que se gerou igualmente de “coligação negativa” – como fizera José Sócrates.

2 – “Coligação”, como se sabe, é um substantivo.
E “negativo/a” um adjectivo.
Como aprendemos na gramática, os adjectivos servem para qualificar os substantivos, normalmente referenciando características próprias, ou intrínsecas, do objecto substantivo.
Se eu disser “céu azul”, estarei a referir uma característica, uma qualidade, um adjectivo – azul -, para caracterizar o substantivo “céu”.
O mesmo se passa em geral: mesa redonda; porta aberta; noite negra; político mentiroso…
Mas, nestes exemplos, trata-se de características que todos reconhecem como intrínsecas, como constitutivas, do objecto.
Não sucede o mesmo com “coligação negativa”.
Porquê?
Porque as coligações não têm como característica própria serem negativas.
Por exemplo: a Geringonça é também uma coligação – mas nunca a vi apodada de negativa.
Pelo contrário, tenho visto nos jornais que se trata até de um modelo exportável, um caso de sucesso a nível internacional: uma coligação positiva, portanto, com valor acrescentado.
Mesmo a AD, coligação entre o PSD de Passos Coelho e o CDS de Paulo Portas, que tanto nos fez penar durante os anos de ajustamento, também nunca a ouvi chamar de “coligação negativa”.
Se não é próprio das coligações, em política, serem negativas e se o responsável máximo pelo poder executivo em Portugal, António Costa, a trata assim, importa perguntar: mas negativa porquê ou para quem?
Não será para todos …
Novo exemplo: o PSD, ou o CDS, ou o BE, ou o PCP, que todos vimos em saudável harmonia, na sala da Comissão Parlamentar, a aperfeiçoar o articulado da Lei, pensarão que a sua momentânea coligação será negativa?
Estou em que não… E que pensam que fizeram boa obra.
Só se for negativa para o Governo, ou para o PS – o que vem a dar no mesmo – já que foi o único partido parlamentar a ficar de fora do concílio.
Tudo isso nada tem de estranho: que uns vejam como negativa uma coligação que outros vêem como positiva é como o poema do António Gedeão: “Cada um é seus caminhos/ Onde Sancho vê moinhos/ D. Quixote vê gigantes/ Vê moinhos, são moinhos/ Vê gigantes, são gigantes”.
O que é estranho é que, em meios que deveriam estar fora da área conflitual da luta partidária, como a comunicação social, se tenha adoptado o adjectivo escolhido pelo Governo para a coligação, em vez da conotação positiva, ou inócua, de outras bandas do espectro.
E, na verdade, apodada por António Costa de “negativa”, logo se viram os noticiários a abrir com a referência à “coligação negativa”, já adoptada como sua pelos jornalistas de serviço – como se o Governo, para além da legitimidade para dar ordens ao pessoal, tivesse ainda uma particular competência semântica e devesse ser seguido mesmo quando disparata (há quem pense que, por definição, nunca disparata… mas sabemos que tal não é verdade).
Onde esperávamos, por ser um sinal de saúde da democracia, uma comunicação social distanciada e crítica relativamente ao poder político, aparece-nos o seguidismo e a contaminação pelos círculos desse mesmo poder.
(É certo que Rui Rio fica a perder neste confronto com António Costa: separa-os uma vida inteira de frequência de mundos separados, sendo um do Porto, da província, e tendo com os jornalistas uma longa carreira de conflito…
Basta ver que os mesmos que logo qualificaram a coligação como “negativa”, à voz do chefe, logo abriram os mesmos noticiários a saudar o “recuo” de Rui Rio, onde, na verdade, e até ver, não havia recuo nenhum, e a ouvir, como sumidades, antigos dirigentes do PSD, sem nada que os recomende, apenas porque são da oposição interna.     
Declaração de interesses: estas minhas apreciações nada têm de afinidade política, ou sugerem qualquer preferência eleitoral; é mesmo só por não gostar que façam de mim (de nós) todos parvos.)

3 – Embora, afinal, pelo que vou ouvindo, só ao PS interessa a crise política agora – a 4 meses das eleições legislativas e a três semanas das europeias -, deixando o BE e o PCP desolados por a legislatura não ir até ao fim, numa estabilidade que seria o seu cartão de visita para as legislativas.
Mas também só lhe interessa a crise assim, branda e leve, sem dissolução parlamentar e sem eleições antes do tempo – mas reforçado pela imagem de não cedência aos interesses, assim se apropriando do património simbólico que é geralmente associado a Rui Rio.
Onde anda agora, quando a luta começa a doer, o apregoado Bloco Central entre António Costa e Rui Rio?

Henrique Rodrigues (Presidente do Centro Social de Ermesinde)

 

Data de introdução: 2019-05-09



















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