Os primeiros mil dias de vida, da gestação aos dois anos, são um período determinante para o crescimento e o desenvolvimento de uma criança, com necessidades nutricionais elevadas e influência na saúde futura (1). É também nesta fase que começa a aprendizagem alimentar: a criança descobre sabores, texturas e aromas e começa a construir a sua relação com os alimentos.
Para muitas crianças, a creche é um dos principais contextos onde esta aprendizagem acontece. A ementa pode, por isso, ter um papel relevante tanto na adequação nutricional como na formação de hábitos alimentares.
Existe, contudo, uma lacuna no planeamento das ementas em contexto de creche. As orientações da Direção-Geral da Educação (2) aplicam-se do pré-escolar ao secundário e, embora existam recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS) para os primeiros anos de vida (1), continuam a faltar critérios específicos para as creches. Estudos realizados em Portugal concluíram que a oferta alimentar nas creches se encontra desadequada, considerando as orientações das entidades de saúde nacionais e internacionais (3,4), o que reforça a necessidade de critérios específicos para o planeamento das ementas.
As ementas dos refeitórios devem estar em consonância com as diretrizes da DGS, tendo a Roda dos Alimentos Portuguesa como referência (5), para garantir uma oferta completa, diversificada e equilibrada. É neste enquadramento que a ProVeg Portugal tem vindo a apoiar o planeamento das ementas em creche, reunindo critérios adaptados aos diferentes escalões etários: presença regular de leguminosas, hortícolas e fruta, e diversidade nas fontes proteicas.
Diversificar uma ementa tem uma relevância nutricional concreta: nenhum alimento ou grupo fornece, isoladamente, tudo aquilo de que a criança necessita. Ao longo da semana, importa respeitar as porções recomendadas das diferentes fontes proteicas, variar os hortícolas, a fruta e os cereais, privilegiando as opções menos refinadas, e dar maior destaque a alimentos nutricionalmente relevantes, mas ainda pouco valorizados, como as leguminosas, que contribuem para a ingestão de fibra, folato, ferro e outros minerais. A diversidade pode, por isso, ser pensada ao longo da semana e não apenas refeição a refeição, sendo que uma alimentação com maior presença e variedade de alimentos de origem vegetal se aproxima também dos princípios do padrão alimentar mediterrânico (6).
A exposição repetida a diferentes alimentos, sabores e texturas pode favorecer a sua aceitação (1). A introdução e a progressão das texturas devem acompanhar o desenvolvimento de cada criança, respeitando as suas competências e o seu ritmo. Diversificar a ementa não significa necessariamente torná-la mais complexa: muitas destas mudanças começam no planeamento semanal e podem ser integradas com as técnicas e os recursos que as equipas já utilizam.
Por via do programa Prato Sustentável, a ProVeg Portugal apoia instituições na diversificação da oferta alimentar, através da revisão de ementas e fichas técnicas, capacitação das equipas de cozinha e produção de materiais de apoio. As instituições interessadas podem contactar-nos para mais informações.
Por: Laila Sultan - Nutricionista - 6062N
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Referências
(1) Rêgo C, Lopes C, Durão C, Pinto E, Mansilha H, Pereira da Silva L, et al.
Alimentação saudável dos 0 aos 6 anos – linhas de orientação para profissionais e educadores. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2019.
(2) Direção-Geral da Educação. Orientações sobre ementas e refeitórios escolares.
Circular n.º 3097/DGE/2018. Lisboa: DGE; 2018.
(3) Pita O, Teixeira B, Nova L, Dias I, Conceição M, Cidade Coelho B, et al.
Caracterização da oferta alimentar da refeição almoço e lanche em creches portuguesas: resultados do projeto “Creche com Sabor e Saúde” – C2S. Acta Port Nutr. 2024;37:6-13. doi:10.21011/apn.2024.3702
(4) Pita O, Teixeira B, Nova L, Cidade Coelho B, Dias I, Conceição M, et al. Impact of the “Creche com Sabor e Saúde” (C2S) project on the food provided by Portuguese daycare centers. Port J Pediatr. 2025;56(3):137-46. doi:10.24875/PJP.24000024
5. Rodrigues SSP, Franchini B, Graça P, de Almeida MDV. A new food guide for the Portuguese population: development and technical considerations. J Nutr Educ Behav. 2006;38(3):189-95.
(6) Pinho I, Rodrigues S, Franchini B, Graça P. Padrão alimentar mediterrânico:
promotor de saúde. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2016.
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