PROF. ANTÓNIO ARAÚJO, PRESIDENTE DA PULMONALE

PULMONALE nasceu para lutar contra o cancro do pulmão

O cancro do pulmão é a doença oncológica responsável pelo maior número de mortos por cancro na sociedade. No entanto, não se tem dado a devida atenção a um problema com uma carga social semelhante, por exemplo, à das doenças cardiovasculares.
A PULMONALE, Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão, nasceu para colmatar esse desfasamento e, sobretudo, porque havia pouco apoio para os doentes de cancro do pulmão e para os seus familiares.

O grande desafio começa agora, com a aposta nas iniciativas de prevenção do consumo de tabaco, para que se obtenham resultados daqui a dez anos, com a redução do número de doentes com cancro. Os outros objectivos passam pela organização de consultas de cessação tabágica, pelo apoio aos doentes que têm cancro de pulmão e pelo incentivo da investigação científica na área do cancro do pulmão.

O Prof. António Araújo é o Presidente da PULMONALE, Associação Portuguesa de Luta Contra o Cancro do Pulmão; é o Coordenador da Clínica de Patologia do Pulmão do Instituto Português de Oncologia, Centro do Porto; e o Director do Serviço de Oncologia Médica do Hospital de São Sebastião, Santa Maria da Feira.

Que razões estiveram na origem da criação da PULMONALE?
A PULMONALE foi criada por haver um sentimento generalizado de que havia pouco apoio para os doentes de cancro do pulmão e para os seus familiares. Por esse motivo, um grupo de pessoas da sociedade civil uniu-se para criar esta associação. Os objectivos da PULMONALE prendem-se com a luta contra o cancro do pulmão e com o apoio aos doentes com cancro do pulmão. Assim, a sua actividade vai centrar-se em quatro áreas. A primeira é a prevenção do consumo do tabaco, em que pretendemos ter acções escolares e acções junto de jovens, para que possamos diminuir o início do consumo de tabaco. A segunda área de actividade, em que vamos estar presentes, é na organização de consultas de cessação tabágica. Pretendemos aqui facilitar o aceso dos indivíduos que fumam e que pretendem deixar de fumar a estas consultas. Pretendemos, eventualmente, conseguir fornecer, a custo zero ou a custo muito reduzido, a medicação que ajude a deixar de fumar, bem como apoio psicológico e de nutrição. A terceira área de actividade, e talvez neste momento a mais importante, é o apoio aos doentes que têm cancro de pulmão. Esse apoio vai passar por consultas de psicologia, de serviço social e consultas de nutricionismo. Pretendemos dar apoio às famílias desses doentes, nomeadamente apoio psicológico e apoio social. A quarta área de actuação tem como objectivo angariar fundos para apoiar a investigação na área do cancro do pulmão.

Esta é uma associação sem fins lucrativos, uma instituição particular de solidariedade social. Mas nasceu da vontade médica de proporcionar apoio aos doentes com cancro do pulmão ou surgiu pela vontade dos doentes?
O grande problema dos doentes com cancro do pulmão é que são doentes que, na sua maioria, são profundamente afectados, muito fragilizados e vivem relativamente pouco tempo. Por isso, não houve até hoje a oportunidade de se organizarem em torno de uma associação. E esta situação foi sentida a vários níveis, incluindo ao nível dos profissionais de saúde que tratam estes doentes. Por isso, a acção primordial começou nos profissionais de saúde que tentaram criar esta associação, mobilizar a sociedade civil e criar a estrutura para o apoio aos doentes com cancro do pulmão.

Foi fácil juntar pessoas interessadas na causa?
Felizmente foi. Tem sido muito fácil angariar associados e pessoas que abraçam esta causa, provavelmente porque tem sido percebido que não existem actualmente grandes apoios a quem sofre desta doença. Existe muito pouca informação e apoio, na prática diária, disponíveis para os doentes e para os seus familiares.
O cancro do pulmão tem sido uma doença pouco falada na nossa sociedade. Existe um estigma com o cancro do pulmão, dado que é uma doença causada muitas vezes pelo consumo de tabaco. As pessoas têm a noção de que foram as causadoras da sua própria doença e isso leva a que seja pouco falada. Por outro lado, esta doença foi ultrapassada por outras doenças como a SIDA e pela toxicodependência. São áreas que têm sido muito abordadas nas escolas e na sociedade em geral, o que deixou o cancro do pulmão para segundo plano. Isto levou a que tenham havido menos acções junto dos jovens para diminuir o início do consumo do tabaco, levou a que, na sociedade em geral, não haja grandes apoios aos doentes de cancro do pulmão e suas famílias, nomeadamente apoios sociais e psicológicos. Isto condiciona e leva a uma marginalização destes doentes. E tudo isto numa doença como o cancro do pulmão que é a doença oncológica mais letal. É uma doença que, por isso, tem um peso social muito grande. Há um estudo publicado que mostra que, em Portugal, a carga social da doença oncológica se equipara à carga social das doenças cardiovasculares. Veja-se o quanto se fala das doenças cardiovasculares e o pouco que se fala do cancro do pulmão.

Não acha que, muitas vezes ou quase sempre, se associa o cancro do pulmão ao consumo activo de tabaco?
O consumo de tabaco condiciona cerca de 80% dos casos de cancro do pulmão. Cerca de 20% dos nossos doentes nunca tiveram contacto directo com o consumo de tabaco. Há outras causas, nomeadamente o consumo passivo do tabaco, a poluição dos locais de trabalho, a poluição atmosférica e outros factores que serão a causa dos referidos 20%.

Sendo os consumidores de tabaco os grandes contribuintes para os números de cancro do pulmão, grande parte das iniciativas da PULMONALE vai focalizar-se nesse grupo…
Exactamente. Esse é o grupo mais facilmente identificável. O grupo em que há uma relação de causa e efeito directa. Se conseguirmos diminuir o consumo de tabaco conseguiremos a médio prazo diminuir a incidência do cancro do pulmão e consequentemente a mortalidade com ele relacionada. Não esqueçamos que existe uma diferença, em termos de tempo, entre o consumo de tabaco e o aparecimento de cancro do pulmão. Essa diferença de tempo situa-se entre 10 a 15 anos. Portanto, vai ser precisa uma década para conseguirmos compreender qual é o efeito das nossas atitudes de hoje. Se conseguirmos reduzir hoje o consumo de tabaco só daqui a 10 anos conseguiremos diminuir a incidência e a mortalidade do cancro do pulmão.

A sociedade portuguesa está suficientemente alertada para os perigos do consumo do tabaco, designadamente com as alterações legislativas que se têm verificado e a proibição do consumo de tabaco em vários locais públicos?
A sociedade como um todo já vai tendo uma noção do perigo que é fumar. Agora é preciso implementar acções concretas no terreno, junto dos grupos sociais mais atreitos a esse tipo de comportamento. Nomeadamente nos jovens, esse grande grupo que está pela idade, pela pressão dos grupos sociais em que se inserem e pelo sentido de aventura do desconhecido e da vontade de experimentar, mais propenso a iniciar o consumo de tabaco. E é nesse grupo que temos que focalizar a nossa atenção. Isso é ainda mais importante na sociedade em que vivemos, dadas as dificuldades económicas que vamos ter nos próximos anos. Se nós pensarmos quanto custa um tratamento do cancro do pulmão, e hoje fala-se muito dos tratamentos inovadores e de quanto isso custa à sociedade, facilmente se compreende que é muito mais barata a prevenção que o tratamento. E é mais barata a vários níveis. O consumo de tabaco não interfere só ao nível do cancro do pulmão, ainda que na PULMONALE tenhamos especial interesse nessa doença. O consumo de tabaco está relacionado directamente com a bronquite crónica e enfisema pulmonar, doenças que, apesar de não serem malignas, diminuem a qualidade de vida e provocam consumo de medicamentos e de outros recursos da saúde. Daí que seja muito mais economicamente rentável apostar na prevenção do que no tratamento.
Relativamente à legislação publicada em Portugal, a Lei do Tabaco é sobretudo uma lei de protecção ao não fumador e não contra o consumo do tabaco. Nesta perspectiva, seria fundamental, entre outros objectivos, apostar na educação dos jovens, com a implementação de um curriculum transversal de Educação para a Saúde que aborde os aspectos de uma vida saudável, implementação de estratégias de controlo do acesso social e comercial ao tabaco, programas de desabituação tabágica específicos para jovens e facilitar a todos o acesso ás consultas de desabituação tabágica, facilitar a aquisição de medicação que ajude esse objectivo.

Como vai sobreviver a PULMONALE?
A PULMONALE é uma associação de solidariedade social, sem fins lucrativos e que não tem fundos próprios. Por isso, terá que viver à custa dos subsídios que conseguir arranjar, dos donativos que conseguir angariar e das receitas de eventos que vai organizar periodicamente. A cota dos seus associados é meramente simbólica, e será assim, já que a associação pretende ter peso na sociedade, pretende ter um cada vez maior número de associados, sem que esse número dependa do valor da cota. Tudo o resto tem que ser angariado, nomeadamente através de donativos e iniciativas para angariar dinheiro, como foi o caso da Gala no Casino Estoril, ou através de subsídios conseguidos a partir de concursos, nomeadamente pelo Ministério da Saúde e Ministério da Educação.

Texto e fotos: Victor Pinto

 

Data de introdução: 2011-02-09



















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