OPINIÃO

A solidão mata

Nas últimas semanas têm saltado para as primeiras páginas dos jornais e merecido a abertura de telejornais vários casos de pessoas idosas vítimas de uma cruel solidão e isolamento social que só a morte acabou por descobrir, volvidos longos meses e, nalguns casos, até anos!
Para quem trabalha com pessoas idosas, sobretudo em apoio domiciliário, esta dura realidade já não surpreende, embora sempre cause um aperto no coração quando, após o pouco tempo que é possível conceder durante os serviços que se prestam, é preciso ir passando de casa em casa, levando muitas vezes, nos olhos e no coração, imagens de pessoas que, após o bater da porta, sabemos que ficarão na mais completa solidão!

Ninguém compreende a razão pela qual, há já muitos anos, sucessivos governos se têm revelado incapazes ou insensíveis perante um drama que a demografia e todos os estudos abundantemente produzidos por gabinetes de planeamento, há muito, davam como previsível: as centenas de milhar de pessoas idosas que iriam ficar sem família, sem saúde, sem dinheiro, numa solidão e isolamento completos!

Tanto dinheiro para obras faraónicas… e tanta gente, sobretudo pessoas idosas, sem direito àquilo que a Constituição da República, no seu artigo 72º, no seu ponto 1 : “as pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social”.

Até quando iremos pactuar com esta insensibilidade social e política perante a solidão e abandono de tantos idosos, permitindo com os nossos silêncios cúmplices que eco nas praças públicas a revolta de um país que, mais cedo ou mais tarde, despertará para a “revolução contra a indiferença”?

Pe. José Maia

 

Data de introdução: 2011-03-14



















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