AFID

Uma porta aberta à diferença

Um quarto de século de “intervenção social profunda, credível, diversificada, pensando sempre nos outros e trabalhando para os diferentes públicos com necessidade de apoio, acrescentando agora o facto de o desenvolvermos com mais qualidade”. Num editorial da revista interna que assinala os 25 anos da AFID, Domingos Rosa, presidente da instituição, exprime o que tem sido a vida de uma IPSS que nasceu para defender e promover os direitos das pessoas com deficiência e suas famílias, mas que o tempo e as necessidades levaram a estender a sua actividade à intervenção social, sob o lema «A AFID é uma porta aberta à diferença».

Quando a 14 de Março de 1985 um grupo de pais e técnicos decidiram fundar a AFID - Associação Nacional de Famílias para a Integração da Pessoa Deficiente o grande propósito era a sensibilização para a problemática da deficiência, um trabalho desenvolvido em escolas, hospitais e junto dos poderes políticos e sociedade civil em geral. Estava-se num tempo em que a assumpção dos direitos das pessoas deficientes não era tão claro como agora e em que havia ainda muito trabalho a fazer na sociedade para que a diferença daquelas fosse olhada com naturalidade e revestida de direitos. Apesar da evolução e diversificação de actividades que a Associação sofreu, as acções de lobbying e de esclarecimento nunca deixaram de fazer parte do seu plano de acção, constituindo a primeira grande razão de orgulho de todos os que para isso têm contribuído ao longo dos 25 anos que a AFID celebrou em 2010.

Da representatividade à intervenção social

Sete anos volvidos sobre a sua fundação no seio da instituição nasceu a necessidade e cresceu a vontade de alargar o seu raio de acção à intervenção social. E, assim, numa moradia nascia um equipamento integrado para pessoas com deficiência, constituído por um Lar Residencial e um CAO (Centro de Actividades Ocupacionais), que ainda hoje funciona em pleno.
Contudo, as necessidades da comunidade foram crescendo e a Associação, sediada na Amadora, passou a partir de 1999, data de inauguração do Centro Social e de Reabilitação do Zambujal, a poder dar respostas melhores e mais diversificadas. Foi um tempo de crescimento exponencial, com a passagem de 20 para 100 utentes, número que ao longo dos anos tem crescido, situando-se actualmente nos 1400, contando com as pessoas que passam pelo Centro de Novas Oportunidades.

“Foram três situações que levaram a AFID a alargar a sua acção da Deficiência à Infância, aos Idosos, à Formação Profissional e à Saúde. Primeiro, foi uma questão estratégica interna de diversificação da actividade, ou seja, a determinada altura, e face ao panorama nacional na área social, a instituição em termos de sustentabilidade e de sobrevivência futura tinha que pôr os ovos em vários cestos. Tal como nas outras actividades económicas normais, há segmentos de mercado que evoluem mais ou menos e que dão maior garantia de sustentabilidade”, começa por explicar Domingos Rosa, continuando a enumerar: ”Em segundo, porque também fomos convidados pelo presidente da Câmara da Amadora para desenvolvermos actividade quer na área da infância quer na do idoso. E, em terceiro lugar, perspectiva-se um grande desenvolvimento na área do idoso, algo que não tínhamos na altura com actividade”.

A este propósito, o presidente da AFID explica porque é que as respostas na área do Idoso se tornou premente para a instituição.
“Havia necessidade de nos introduzirmos nessa área por duas razões: primeiro, porque era a que cresceria mais no futuro e, por outro, sentimos que os nossos jovens estavam a passar as diversas fases até ao envelhecimento, e há 30 anos não era tão visível termos pessoas com deficiência idosas. Hoje é um fenómeno que já nos tocou à porta. E na altura sentíamos que não tínhamos competências adquiridas nessas áreas e ao caminharmos para a área do Idoso estaríamos a beneficiar as pessoas com deficiência que atendíamos, porque também elas já caminhavam para essa idade e teriam que ter uma intervenção diferente daquela que tínhamos”.

Hoje, com um corpo de 140 funcionários, a AFID Diferença trabalha nas áreas da Deficiência, Infância, Idosos, Educação e Formação de Jovens e de Adultos e Saúde, tendo como respostas sociais: CAO, Centro de convívio, Creche, Pré-escolar, Lar residencial, Serviço de Apoio Domiciliário, Programa de qualificação de pessoas com deficiência e incapacidade, Centro de Medicina Física e Reabilitação e Centro Novas Oportunidades.
Com o alargamento à Infância, a Associação passou igualmente a apostar decisiva e estrategicamente na intervenção precoce.
“Um dos fenómenos que, há 30 anos, estava em desenvolvimento era a integração das pessoas com deficiência e a melhor forma que há de o fazer é logo na primeira idade, em creches e em pré-escolar. E ao gerir as creches e os pré-escolares facilitamos também a integração das pessoas com deficiência”, explica Domingos Rosa, acrescentando: “Isto tudo está previsto no nosso plano estratégico. Nós defendemos muito a intervenção precoce, porque achamos que é a área da deficiência mais valiosa. Isto porque permite, logo nos primeiros dias de vida das pessoas, que a família participe. A família ao participar significa que o abandono destes jovens no futuro é menor, porque se criam elos com a criança muito mais sólidos. Por outro lado, a criança ao ser integrada desde o início, tem grandes hipóteses de diminuir os efeitos dessa deficiência no futuro. Ao fazermos isto, se calhar, estamos a evitar ter que construir muito mais residências e o próprio Estado é poupado no investimento nestas áreas. E estes jovens ao estarem integrados poderão ter a capacidade de se reajustar na sociedade e superar muitos obstáculos da sua deficiência. Tudo isto são ganhos que a sociedade, o Estado e as famílias vão ter. Os americanos dizem que com um dólar investido na intervenção precoce ganham-se sete e não tenho dúvidas de que é assim. Os números podem não ser correctos, mas é assim”.

Já a intervenção na área dos idosos, para além das necessidades surgidas na comunidade, tem ainda, segundo o seu presidente, uma outra motivação por parte da AFID: “Ao intervirmos nos idosos é porque no futuro vamos ter necessidade de intervir junto dos deficientes, mas com as metodologias dos idosos, porque eles também serão idosos. Aliás, os próprios idosos também se vão transformando em deficientes, daí que houve necessidade de ir criando competências e experiência”.
Neste particular, a AFID pretende ainda neste mês de Abril dar início à construção de um Lar de Idosos, sendo que actualmente a sua resposta a esta faixa da população se cinge ao apoio domiciliário.
“Começou por ser a idosos, mas com um projecto que lançámos passou a ser também a deficientes. Inicialmente a resposta foi devido à solicitação da Autarquia, mas como havia jovens deficientes que não podíamos atender aqui no Centro, estendemo-la a eles também”, revela Domingos Rosa.

Fundação nasce em 2005

Tal como na altura da fundação da AFID, ao longo dos anos, da necessidade surgiram as respostas. E foi nesse sentido que, em 2005, a AFID se transformou em Fundação AFID Diferença, deixando as questões da representatividade na Associação e passando todas as respostas sociais para a novel Fundação.
“As associações têm um problema para quem é gestor. Quem tem aquela filosofia de desenvolver as actividades associativas como voluntário fora do âmbito da gestão das organizações talvez isto não seja importante, mas quem tem a filosofia de gerir mais profissionalmente estas organizações tem mais dificuldade nos períodos de manutenção das Direcções em períodos eleitorais de dois ou três anos e dar sequência ao trabalho é impossível, porque nunca podemos projectar no tempo as ideias que se têm e que são aprovadas em sede de Assembleia para o desenvolvimento da instituição”, justifica o presidente da instituição a propósito da criação da Fundação, exemplificando: “Por exemplo, relativamente à implementação do sistema de qualidade, como director de uma instituição posso dizer que quero avançar com a sua implementação, mas, como é um processo longo, daqui a dois anos saio e quem vier pode não querer… Portanto, há aqui problemas de gestão a médio e longo prazo que não são compatíveis com o desenvolvimento das organizações. Daí, em 2005, passámos tudo o que é prestação de serviços para a Fundação e a representatividade, questões políticas e de direitos, ficou na Associação. Esta é a razão fundamental que levou a que quiséssemos criar uma resposta mais consolidada no tempo”.

Tripla certificação de qualidade

A todo este vasto trabalho de representatividade e de intervenção social, que se estende já à Empresa de Inserção na área da jardinagem, com a AFID Green, a instituição da Amadora é a única IPSS a estar certificada pelas três Normas existentes no País (ISO 9001, EQUASS e Segurança Social).
Após um processo iniciado em 2001/2002, a instituição foi em 2007 certificada pela Norma ISO 9001, no que foi a primeira certificação de uma instituição da área social. A escolha do caminho da certificação, que se estenderia a mais duas Normas, foi essencialmente uma questão estratégica, tal como sustenta Domingos Rosa.
“Quando em 1999 inaugurámos o Centro Social e de Reabilitação do Zambujal demos um salto muito grande e ainda não tínhamos as competências necessárias na área da deficiência em termos de intervenção. E essa foi, se não a razão principal, uma das principais para avançarmos pelo caminho da certificação. Na altura pensámos que o que pretendíamos fazer era muito complexo, tinha muitas valências, envolvia muitas pessoas e passava por desenvolver actividades de pessoas para pessoas, pelo que considerámos que tínhamos que o fazer de uma forma consistente e bem feita”, começa por dizer o presidente da AFID, prosseguindo: “E a única forma de o fazermos era criar mecanismos de implementação de referenciais que melhorassem a qualidade dos serviços. Daí que em 2001, 2002 começássemos a lançar um conjunto de metodologias de qualificação que vieram a dar origem, em 2007, à certificação pelo ISO 9001. Fomos a primeira instituição a ter todos os serviços certificados segundo esta Norma e, logo a seguir, já estávamos a preparar a certificação pelo EQUASS e pelos Referenciais da Segurança Social”.

As boas-novas chegariam já este ano, com a atribuição do certificado de qualidade de Nível II – Excellence, do EQUASS, um modelo a nível europeu voltado para a área social.
“Fizemos as auditorias em Dezembro passado e em Janeiro conseguimos a certificação. O CRPG [Centro de Reabilitação Profissional de Gaia] foi a primeira entidade a ser certificada, nós de seguida e sei que a APPACDM de Gaia também recebeu. Somos as três instituições em Portugal com o Nível II do EQUASS”, afirma, com orgulho, Domingos Rosa.
Ao mesmo tempo, a AFID foi implementando os Referenciais de Qualidade da Segurança Social, pelos quais também está certificada no nível de excelência.

“Quando implementámos o ISO 9001 fizemo-lo com base nos documentos recomendados pela Segurança Social e nas metodologias dos princípios do EQUASS. Ora, ao ser certificada pela ISSO, a instituição já estava em condições para ser certificada pelos outros dois”, frisa o presidente da instituição da Amadora, recordando: “De repente, passáramos de 20 para 500 utentes, e isto levou a que surgissem alguns problemas de crescimento que precisavam de ser bem organizados e, já que tínhamos que fazê-lo, decidimos fazê-lo como deve de ser, ou seja, com qualidade certificada”.
Para além disto, segundo Domingos Rosa, a certificação é “o único meio de se conseguir pôr todas estas envolventes a funcionar bem”.

Apesar do reconhecimento público pelo esforço e trabalho de qualidade desenvolvido e atestado por quem de direito, o líder da AFID Diferença deixa um lamento: “Do Estado vem o reconhecimento, mas não há discriminação positiva pelo facto de termos a certificação. Somos apoiados como são os outros, mas há o reconhecimento público e é muito importante. E o que digo para o Estado Central digo para o Local… A Câmara já nos arranjou mais uma creche para gerirmos, mas as comparticipações não são melhoradas pela certificação. Ainda estamos à espera que a entidade fundamental [Estado] possa olhar para estas instituições certificadas com outros olhos, porque, quer queiramos quer não, há responsabilidades acrescidas que outros não têm”.

Pedro Vasco Oliveira (texto e fotos)

 

Data de introdução: 2011-04-09



















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