ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA

Um sacrifício que não foi em vão

Foi há cinco anos, mais precisamente a 17 de Dezembro de 2010, que um jovem tunisino, de nome Mohamed Nouzizi, se imolou pelo fogo numa pequena cidade do seu país. Com este gesto surpreendente, ele pretendeu chamar a atenção do mundo para os problemas sociais da Tunísia, nomeadamente o desemprego, de que era um dos muitos milhares de vítimas. Aparentemente, conseguiu essa atenção. O mundo percebeu melhor, nessa altura, que o estado tunisino não tinha fundamentos democráticos e que, por outro lado, o turismo não era, só por si, garantia sólida e duradoura de emprego e, sobretudo, de uma justa aplicação das suas receitas. De repente, num país onde, desde a proclamação da sua independência em 1956, reinava uma aparente paz social, teve início uma revolução pacífica que ficou conhecida como “primavera árabe”. Foi uma revolução que suscitou grandes esperanças noutras regiões do norte de África e do Médio Oriente e, particularmente, na maior parte dos países ocidentais.

A esperança nos efeitos positivos desta “primavera” era tanta que os seus líderes não foram capazes de prever o falhanço total que se seguiria à morte física e política de Muhamar Kadhafi. O seu desaparecimento fez mergulhar a Líbia num caos total que se mantém até hoje, e sem qualquer expectativa de recuperação a curto e médio prazo. A mesma incapacidade foi demonstrada, quando as potências ocidentais, nomeadamente os Estados Unidos e a França, entenderam que era altura de abrir caminho à chegada de um tempo novo para a Síria, caminho que passava necessariamente pelo desaparecimento de Bashir al Assad. Para tal, bastaria apoiar política e militarmente os grupos que se opunham ao presidente e ao seu regime. Foi uma previsão demasiado simplista e perigosa, aparentemente por não ter em conta a dimensão do apoio que a Síria sempre encontrou em Moscovo. De momento, tudo indica que Assad sairá ainda mais forte de uma guerra civil que já fez trezentos mil mortos e provocou cerca de cinco milhões de refugiados. Pior ainda, a desejada primavera síria deu lugar ao pavoroso inverno do estado islâmico que se instalou no seu território.

Os ventos da “primavera árabe” chegaram, com maior ou menor intensidade, a outros estados árabes como o Iémen, mas em nenhum deles essa primavera chegou a florir, a não ser precisamente no país onde esses ventos se fizeram sentir pela primeira vez. Embora com graves sobressaltos, a Tunísia ainda não desistiu do caminho que começou a percorrer há cinco anos. A recente atribuição do Prémio Nobel da Paz ao quarteto que liderou o processo que conduziu à estabilização política e democrática da Tunísia veio demonstrar que o sacrifício de Mohamed Nouzizi não foi em vão. 

 

Data de introdução: 2016-01-08



















editorial

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