ASSOCIAÇÃO DO AMPARO FAMILIAR DE MIRA DE AIRE

Nascida das mãos do povo

A vila de Mira de Aire dista 13 quilómetros de Porto de Mós, concelho a que pertence, coincidindo o limite da freguesia a sul com o concelho de Alcanena. A paisagem é de contrastes: a alta e escarpada encosta da serra que revela três cavernas de aspecto estranho, às quais os mirenses deram o nome de Ventas do Diabo ou Penas do Mindinho e a zona do vale de Mira e Minde. Outrora, uma das freguesias mais populosas do concelho, nos últimos anos, veio a registar uma diminuição demográfica. Tendo em conta os últimos dados disponíveis (Censos de 2001), o envelhecimento da população tem aumentado significativamente e são muitas as pessoas a viver no limiar da pobreza.

Fracos recursos e muitas carências foram o incentivo para um grupo de amigos da terra iniciar há cerca de uma dúzia de anos um projecto de ajuda e de resposta às necessidades básicas de uma população carenciada e que hoje é conhecido como a Associação do Amparo Familiar de Mira de Aire.
“Foi há 12 anos que nos juntámos com o propósito de apoiar os idosos mais carenciados a nível de apoio domiciliário”, explica Eugénio Lopes, presidente da associação, referindo que o apoio domiciliário foi sempre o pilar principal da edificação da instituição, uma vez que não existia nenhuma valência do género que desse apoio à população idosa da vila. Durante anos, o centro de apoio funcionou em pequenas e antigas instalações arrendadas com um grupo de sócios que contribuía voluntariamente para a associação.

Fundada oficialmente em Fevereiro de 1996, a associação tornou-se num espaço onde “as senhoras mais idosas juntavam-se de segunda a sexta-feira, para passar a tarde em conjunto”, explica o presidente. “Conviviam umas com as outras, realizavam diversas actividades, merendavam e ao final do dia regressavam a suas casas pelos seus próprios meios”, diz. Com a legalização, enquanto instituição particular de solidariedade social (IPSS), a associação viu reconhecidas duas valências que mantém actualmente: apoio domiciliário e centro de convívio, tendo acolhido ao longo destes anos 281 utentes.

As necessidades eram muitas e as condições de trabalho poucas, mas a necessidade de um edifício condigno era um sonho não só dos associados como dos mirenses em geral. Em Fevereiro passado, esse sonho de anos torna-se realidade e é inaugurado o novo centro de apoio aos mais velhos da freguesia. “Foi um sonho tornado realidade e que eu julguei muito difícil de concretizar, porque envolvia muitos valores e não tínhamos apoio”, relembra Eugénio Lopes.

A obra custou 600 mil euros e, nos últimos quatro anos, foi crescendo com verbas doadas pela população e por muitos imigrantes, em diversas acções de angariação de fundos. Das entidades oficiais, a IPSS recebeu da Câmara 90 mil euros, da Segurança Social 35 mil euros e da Junta de Freguesia 2500 euros. A associação teve, ainda, que recorrer ao crédito bancário para suportar a restante fatia. As novas instalações permitem melhores condições no espaço da zona de convívio onde, todas as tardes, mais de três dezenas de anciãs se reúnem, e a palavra escreve-se no feminino porque a presença masculina é ainda diminuta na associação. “Acreditamos que com a construção do jardim, que está a cargo de jovens voluntários, possamos chamar até nós os homens que, com espaço para jogos de Verão, gostem de estar connosco”, refere o presidente.

Presidente da IPSSContas à parte, a festa de inauguração juntou mais de meio milhar de pessoas no pátio exterior do novo centro de apoio. Ali partilharam um almoço que, tal como muito do dinheiro investido no projecto, foi oferecido pela população local. Feita pela população e com a população, Eugénio Lopes orgulha-se em dizer que a associação “não tem lista de espera, apesar de ultrapassar o número de utentes protocolado”, porque “temos as portas abertas para quem precisa de nós”. Maria do Carmo Reis é a tesoureira da Amparo desde o início da sua fundação, bem como sócia número um e é com um sorriso largo que fala daquele espaço. Do alto dos seus 80 anos diz que “não acreditava que um dia a associação chegasse ao que chegou”. Viu a instituição crescer e conhece todos os utentes pelo nome e pela história de vida. “Quando chegamos a casa de uma pessoa é uma grande alegria para ela. As pessoas estão tristes, sós e não há dúvida que a nossa visita é muito mais do que ir levar o almoço ou dar banho, é uma companhia”. Maria do Carmo fala com carinho de todo o trabalho que é desenvolvido: “fazemos tudo o que está ao nosso alcance para ajudar quem precisa e a população reconhece isso. Quantas vezes fui varrer e dar banho a quem precisava, o que é preciso, nós fazemos”.

Com 11 funcionários, só no ano passado, serviram mais de 15 mil almoços e oito mil lanches aos mais velhos da freguesia que receberam, também, apoio na higiene pessoal, da casa e no tratamento das roupas. Para além disto, a associação também presta ajuda psicológica. “São pessoas que estão sozinhas, e que, muitas vezes, vivem isoladas, com grandes dificuldades financeiras e sujeitas a depressões”, explica Cátia Santos, psicóloga e directora técnica da instituição. A associação já tem aprovada pela Segurança Social a valência de Centro de Dia para uma dezena de utentes, que entra em funcionamento durante o mês de Junho e com as portas permanentemente abertas os desafios de hoje mantêm-se os mesmos de há 12 anos atrás, segundo Eugénio Lopes: “responder mais e da melhor forma, porque nós existimos para a população e porque a população assim o quis”.

 

Data de introdução: 2008-06-04



















editorial

O TRIÂNGULO DA COOPERAÇÃO

A consciência social, aliada ao dever ético da solidariedade, representa uma instância suprema de cidadania, um compromisso inalienável para com os mais vulneráveis e em situação de marginalidade, exclusão e pobreza.

Não há inqueritos válidos.

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