AMIZADE, RIO TINTO

Associação de Imigrantes de Leste promove a integração

Começaram com menos de uma centena, agora são quase dois mil. Na sua maioria são ucranianos, mas também há russos, moldavos e lituanos. Aleatoriamente escolheram o Grande Porto para viver. Os motivos da partida dos países de origem variam, mas todos têm um denominador comum: encontrar no país de acolhimento, uma vida melhor. O desejo de integração fez nascer a Amizade, uma associação de apoio aos imigrantes, com sede na freguesia de Rio Tinto, Gondomar. A Junta local cedeu um espaço contíguo às suas instalações para ali receber aqueles que vinham dos escombros da extinta União Soviética. Cerca de 700 imigrantes estão radicados em Rio Tinto, outros 300 em Gondomar. O grupo nasceu em 2004 com cerca de 70 imigrantes e hoje ultrapassam os 1800.

À frente do movimento está Natalia Vaskouska, uma ucraniana de 39 anos, professora de biologia e química de formação, embora nunca tenha exercido em Portugal. Desde que chegou ao nosso país alternou o trabalho como empregada de limpeza com períodos de desemprego. Como professora na Ucrânia ganhava cerca de 30 euros. “Já nem tinha o que comer”. O marido Vitalio era professor de Educação Física. Hoje trabalha na construção civil. Não havia alternativa. “Vamos imigrar”, ponderou a família em 1999. “O meu marido partiu para Portugal primeiro, arranjou uma casa”, recorda de novo a viagem. Natalia chegou três meses depois e mais tarde veio o filho, na altura com nove anos.

A escolha das terras lusitanas deveu-se unicamente ao facto de ser fácil entrar no país. “Compramos os vistos turísticos. Foi o país mais fácil para estarmos legalizados”, explica com um sorriso. “Calhou o Porto porque já tínhamos um vizinho cá”, desvendou sobre a escolha da cidade. E a primeira reacção à cidade foi: “Onde está o Porto?” O vizinho foi mais claro: “Já estamos no Porto”. Então Natalia percebeu que o Porto é uma cidade assente numa história “de ruas estreitas e casas de muros altos”. O pior foi enfrentar a língua. “Até hoje aprendo o português com uma professora da AMI (Assistência Médica Internacional)”, referiu. Uma dificuldade partilhada por Tatiana Bushkovskaja, também em Portugal desde 2002. “A língua foi muito difícil, mas agora após alguns anos, as dificuldades são outras”. Tatiana refere as dificuldades que o país enfrenta e que se reflecte ainda mais numa comunidade imigrante, principalmente com a dificuldade cada vez maior em arranjar trabalho de forma legal”.

Seja como for, ao aterrar na terra onde vive, Rio Tinto, Natalia deparou-se “com uma vizinha pronta a ajudar”. “Está aqui um casal estrangeiro a viver”, anunciava a vizinha, que hoje é uma senhora com 80 anos. “Deu roupa de cama, vinham à noite com comida”, lembrou, exaltando que “foi uma grande ajuda”. “Até no IRS”, arregalou os olhos. “Eu lá sabia preencher uma declaração do IRS”, desabafou. Tatiana mais uma vez concorda com a amiga. “Recebemos muita atenção dos portugueses e ajuda, mesmo de pessoas que não têm muito para dar. Os portugueses são uma sociedade muito aberta”, diz.

A ideia de criar uma associação partiu de um grupo inicial de oito pessoas que queriam aprender português e continuar a celebrar as suas festas tradicionais. O trabalho desenvolve-se em três áreas-chave: educação, cultura e apoio social. A Amizade prepara actividades múltiplas, a maioria relacionada com a interiorização da cultura portuguesa. “Temos duas classes de meninos, nossos filhos, que estudam ucraniano e russo todos os sábados, com uma professora também ucraniana”, adiantou Natalia. Para além das aulas para os mais pequenos, continua o ensino em regime pós-laboral para os adultos e explicações pedagógicas variadas para os jovens. No domínio da cultura, a Amizade tem um grupo folclórico com 30 pessoas, grupos de dança, de teatro, de canto. As festas do calendário religioso ortodoxo e da tradição russa e ucraniana são festejadas a rigor. O apoio social à comunidade é outra das grandes áreas de intervenção da associação.

“Em colaboração com o Banco Alimentar Contra a Fome, distribuímos alimentos a 116 famílias carenciadas”, explica Natalia. A associação também ajuda os recém-chegados a arranjar casa, trabalho, mobília e fornece apoio jurídico maioritariamente relacionado com a legalização e contratos de trabalho. Desde há três anos, conseguiram também estabelecer uma parceria com uma equipa de dentistas de Lisboa, que, uma vez por mês, disponibilizam consultas gratuitas à comunidade. A preocupação em conhecer a história, geografia e legislação portuguesa fazem parte do plano anual de trabalho da Amizade. “Uma vez por mês pedimos o autocarro à Câmara de Gondomar e viajamos pelo país com o objectivo de conhecer a história e geografia de Portugal. Visitamos castelos, museus, igrejas…”. A organização de conferências e seminários destinados a esclarecer problemáticas que afectam a comunidade também é outra das actividades com muita adesão. Para Setembro está programada uma conferência com a colaboração do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social sobre “contratos de trabalho, direitos dos imigrantes, sistema de Segurança Social português”, adianta Natalia.

Mas a associação depara-se com o problema de falta de financiamento. Sem funcionários, a associação vive do regime voluntariado e todos os professores ou monitores de áreas específicas prestam serviços a recibo verde. “A Amizade vive das quotas dos sócios e do apoio anual do ACIDI (Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural), o que nos dá em média um orçamento mensal de 100 euros”, explica. O sonho de terem instalações próprias, uma das condições para se legalizarem enquanto IPSS é grande, mas os obstáculos são vários. “O principal problema é o dinheiro. Nós sabemos que existem programas do Governo que apoiam a construção de instalações a 75 por cento, mas e os outros 25 por cento? Não temos como pagar”, lamenta Natalia.

A conjectura económica nacional aumenta os problemas da comunidade. “Quando vim para Portugal, era melhor, agora cada vez mais a vida está cara e 400 euros não dão para educar os nossos filhos, pagar casa, comer, além de que em muitas famílias, há pelo menos uma pessoa desempregada”, explica Natalia. Apesar disso, tanto Natalia como Tatiana não desejam regressar ao país natal. “Temos cá os nossos filhos, que já estão habituados à cultura portuguesa. Gostamos de cá estar e na Ucrânia vivemos sempre a pensar no dia de amanhã. Estamos tranquilos”, comenta a presidente da Amizade entre sorrisos. O desejo de ficar é também o de Tatiana, natural da Sibéria, na Rússia, que para além das razões de segurança e estabilidade que encontrou em Portugal, refere “o sol lindo que vocês aqui têm”.

 

Data de introdução: 2008-07-12



















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