NOVEMBRO 2025

MULTIDIMENSIONALIDADE DO ENVELHECIMENTO

1. O agravamento do envelhecimento demográfico, em Portugal, e no Mundo, é um fenómeno incontornável e as sociedades precisam de se organizar para garantir, às pessoas mais velhas, qualidade de vida e cuidados adequados às suas necessidades. A longevidade é perspetivada como uma vida prolongada ou duradora, estando este conceito intrinsecamente ligado ao aumento da esperança média de vida e, simultaneamente, ao conceito de envelhecimento. A sociedade em geral tende a não dissociar estes conceitos, sendo, no entanto, claro que, por parte de todos os agentes sociais, há um grande trabalho a ser desenvolvido que, desde logo, passa por uma necessidade de atuação preventiva nos domínios da saúde e da educação preparando as sociedades futuras para responder aos padrões de necessidades das novas gerações de pessoas mais velhas. É essencial que “se aprenda” a estar preparado para viver mais anos e que a sociedade saiba enquadrar e promover ativamente a participação destes novos longevos nas diferentes esferas de atuação.

A longevidade é, para muitos, o problema mais importante das sociedades modernas, sendo fulcral o desenvolvimento de esforços públicos e privados para que a última fase da vida seja ativa e saudável. O aumento da longevidade influencia diretamente as questões de saúde e de dependência, o que nos obriga a avaliar o impacto desse fenómeno sobre o estado de bem-estar das pessoas mais velhas – variando de acordo com o nível social, cultural e até físico das pessoas.

É, essencial, que a pessoa mais velha possa ser pensada como um ser global, biopsicossocial, com necessidades de diversas naturezas que não podem ser negligenciadas, assegurando o respeito pelas suas crenças e autodeterminação, sob pena de, adequadamente,  não ser possível contribuir para a qualidade de vida, ou seja, o seu bem-estar físico, psicológico, emocional e social. Falamos na multidimensionalidade do envelhecimento que envolve dimensões biológicas, psicológicas, sociais, ambientais e também culturais.

O grande desafio é, numa perspetiva holística, encontrar resposta às diferentes dimensões, que assegure a continuidade e integração de cuidados às pessoas mais velhas. É essencial que se aposte numa medicina de acompanhamento do envelhecimento que atenda às suas especificidades e que promova a investigação científica que contribua para um maior conhecimento das suas potencialidades. É essencial que a prescrição de cuidados não seja apenas de domínio da saúde e/ou proteção social, mas que se promova a sua participação social e cultural, disseminando as práticas de prescrição social e prescrição cultural já existentes.

 

2. Para responder aos desafios da longevidade, é necessário adaptar os instrumentos à população, respondendo às suas necessidades, diferentes de acordo com as características e contexto onde a pessoa mais velha se encontra inserida. Desenvolver e disponibilizar, de forma integrada e complementar, cuidados sociais e de saúde de qualidade: sempre que possível, cuidados domiciliários que permitam a permanência da pessoa mais velha no seu contexto de vida e familiar; e quando estas condições não sejam ajustadas para corresponder às necessidades (sociais, de saúde, culturais, religiosas), cuidados residenciais capazes de permitir às pessoas mais velhas a longevidade agradável, ativa e com maior satisfação e bem-estar. A existência de condições dignas de habitação antecede estes mesmos cuidados e, muitas vezes, impede, como desejável, a permanência da pessoa idosa no seu domicílio. É fundamental não descurar esta dimensão.

O envelhecimento é um processo longo que a todos diz respeito. A multidimensionalidade das necessidades exige uma multidimensionalidade de intervenções, sendo imprescindível que exista uma intervenção multidisciplinar, em rede, articulada e interligada, que garanta uma resposta de continuidade às pessoas mais velhas. Uma intervenção complementar intersectorial e interinstitucional, garantindo uma resposta holística às necessidades da pessoa mais velha e não um somatório de apoios e/ou cuidados.

Temos de encontrar as formas de dar resposta às necessidades das pessoas mais velhas, sempre tendo como ponto de chegada o bem-estar, num percurso de cuidados humanizados, individualizados e respeitosos. Estas necessidades diferenciadas, mas únicas, não se compadecem com respostas sociais estandardizadas e inflexíveis.

 

3. No dia a dia das Organizações sentem-se dificuldades, espartilhos e barreiras, aos mais diferentes níveis, nomeadamente na indispensabilidade de novas respostas sociais, de flexibilizar e adaptar as respostas sociais existentes, de estratégias novas para respeitar e individualizar os mais velhos, na rigidez das leis laborais para reorganização dos horários de trabalho, do ritmo da contratualização bem diferente da velocidade que a realidade exige.

É essencial que a preparação destas respostas sociais flexíveis assente igualmente na capacitação dos profissionais, motivando-os e dotando-os de mais e melhores condições, de tempo, de diálogo, de partilha e construção conjunta da intervenção, atendendo às características e especificidades de cada pessoa cuidada, com intencionalidade de participação, de individualização e de bem-estar.

O envelhecimento ativo é suportado por pilares que o sustentam e fazem desenvolver: saúde, participação, segurança e solidariedade entre gerações. Não pode haver demissão dessa responsabilidade por nenhum destes pilares.

A forma como a sociedade encara os mais velhos, uma visão redutora, apenas como custos, parecendo ignorar o valor que eles transportam na sociedade e nas famílias, precisa ser urgentemente corrigida, quantificando o seu valor social. O aumento do número de pessoas mais velhas demonstrará todo o potencial e contributo que têm e que se tornará cada vez mais evidente com o seu alargamento. É essencial que os mais velhos sejam vistos enquanto pessoas e não categorizados pela sua idade, com um marco que rotula, doravante, a sua condição.

 

Lino Maia

 

Data de introdução: 2025-11-12



















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